domingo, 29 de abril de 2012


Comemorações 2012,de Abril de 1974


Comemorou-se ontem mais um aniversário da revolução de Abril de 1974.
A estas já habituais comemorações na Assembleia da República, não compareceram, pela primeira vez, os principais homenageados – revolucionários capitães de Abril – por só agora começarem a perceber e a ter remorsos dos resultados que provocaram com a traição ao regime que tanto os apaniguava. Sim, faziam parte das elites mais prestigiadas e privilegiadas do regime, de que aliás foram o principal sustentáculo – em franco detrimento das classes mais desfavorecidas.
Sentindo um dia porém, que o regime os afectava, embora muito ligeiramente, nos privilégios que sempre lhes concedera, resolveram provocar uma revolução, mandando para as «urtigas» o regime e as ideias com que estavam comprometidos, e haviam sustentado e defendido.
Não, o Estado Novo nunca poderia ter-se mantido durante quase meio século, se não sustentado ideologicamente pelas forças armadas – com os seus oficiais à cabeça.
De qualquer maneira, se não tenho por esses militares qualquer sentimento de gratidão, admiro-lhes a coragem e ousadia dessa acção, recriminando-os porém por não terem medido as consequências do que se iria passar com o abandono das nossas Províncias Ultramarinas, e por entregarem os destinos do país, aos «indígenas» que tinham passado as suas vidas a combater a unidade pátria, e que após a revolução se sentaram à mesa do orçamento do estado, a lambuzar-se nos gastos das 800 toneladas de ouro que o Salazar nos havia legado – fruto das muitas poupanças a que obrigara o Povo Português.
Acredito que a recusa da comparência no parlamento dos militares de Abril, no dia do aniversário da revolução, terá tido como causa, o facto de também esses militares estarem a ser um pouco afectados pela crise. Tudo estaria certo se ela afectasse só os outros portugueses. Parece-me que eles se sentem com direitos especiais, incluindo o direito à gratidão de todos os outros indivíduos.
Nesta tomada de posição tiveram a solidariedade de algumas das tais figuras, a quem, após a revolução, entregaram a «manjedoura» do estado, para se fartarem.
Sim, parece-me que estas, tinham realmente razões para lhes estarem gratas.
Arrogantemente, um militar de Abril, afirmou, já fazer parte da história e pelas melhores razões… No lugar dele, não teria assim tantas certezas!
A história que até agora se escreveu e que as juventudes conhecem, é a história dos «vencedores»… Está por fazer, mas acredito que se fará um dia, a verdadeira história, e aí se ficará a saber como foi a nossa fuga de África e quais as consequências, o que aconteceu à nossa marinha mercante e de pescas, à indústria naval, à siderurgia nacional, à agricultura, e como se delapidaram os «comboios e comboios» de dinheiro vindo da C E.
Numa palavra, aí se ficará a saber como chegámos à tremenda crise que agora nos atingiu e que nos torna «mendigos» da Europa, bem ao contrário do antigo «orgulhosamente sós».
Será que nessa altura, os tetranetos do mencionado senhor, não se envergonharão da história dos seus tetravós?...
Deixo a pergunta para a história.
Se, como povo, nos sentimos ufanos com a história da nossa expansão pelo mundo durante séculos, e levantamos estátuas aos seus obreiros, é forçoso que nos venhamos a sentir envergonhados de regredirmos até ao espaço que ocupávamos no século XIII.
Com a desonestidade intelectual que julgo ser apanágio de alguns dos nossos políticos, em alguns discursos das comemorações, ouviram-se laudas à melhoria da educação, saúde, vias e meios de comunicação etc., por comparação com o que havia antes da revolução dos cravos, como se este progresso se lhe devesse…
Ora, isto é a negação de que podíamos evoluir na senda democrática e do progresso, sem necessidade de qualquer revolução. Ou seja, é a afirmação de que sem o 25 de Abril, teríamos ficado eternamente parados no tempo, ao contrário do que, por exemplo, se passou na nossa vizinha Espanha.
Bem, e quanto à conquista da liberdade, tenho muitas dúvidas se as pessoas hoje são mais livres, até porque julgo que a liberdade é essencialmente um estado de espírito.
E os opressores continuam a andar por aí.




26/04/2012
Zé Macário




4 comentários:

  1. Meu caro Zé.
    Fico contente de te continuar a encontrar por estas bandas.
    Bom, como sempre concordo em muito naquilo que escreves, mas desta vez, meu caro Zé nem pouco mais ou menos posso estar de acordo com uma visão de que os capitães antes do 25 de abril eram protegidos ou favorecidos pelo antigo regime. Não, esses jovens, Capitães, com muitos dos quais eu tive o prazer de trabalhar, não faziam parte desse protegidos.Eles eram tal como outros a carne que servia para canhão em defesa dos interesses daqueles que nunca os reconheceu, nem antes nem depois. Eram demasiado novatos para fazerem parte desses protegidos, porque como bem sabes os protegidos não podiam ir para a guerra, e estes jovens na sua maioria não pertenciam a essas classes.
    Muito, muito mais haveria para dizer sobre essas questões, mas fico-me por aqui em relação a esses homens que me deram a liberdade de estar aqui agora a escrever livremente aquilo que penso, bom, livremente penso eu, porque a liberdade de pensar nem no tempo da outra senhora foi reprimido, muito embora o fosse, calando aqueles que pensavam e tinham a coragem de dizer o que pensavam.
    Um grande abraço e até sempre.

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  2. Meu caro montedufe, a grande verdade é que o 25 de Abril foi uma guerra de capitães, sim. Se te lembras, havia os do quadro, oriundos da academia e os milicianos que, na sua maioria, eram graduados para satisfazer necessidades de comandos operacionais. Acontece que os do quadro nunca viram com bons olhos estas graduações e daí o mal-estar e a revolta. Muito sumariamente foi isto o que aconteceu. Claro que, entretanto, outros interesses se instalaram e outros oportunistas surgiram, também eles descontentes com as suas carreiras. O 25 de Abril nada teve a ver com o povo ou para bem do povo, nem tampouco teve cariz político. Esse cariz político existiu uns anos antes com o desvio do paquete Santa Maria, mas não passou disso e o movimento que o fez entrou em letargia, tendo vindo a aproveitar-se da revolta dos capitães.

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  3. Réplica

    Quero hoje responder ao meu querido amigo «Monte Dhuf», sustentando tudo o que afirmei no meu artigo sobre comemorações de Abril, reconhecendo porém que a instituição militar é das instituições mais dignas desta «democracia», e onde menos escândalos se tem verificado. Quer isto dizer que as escolas militares continuam a formar homens de gabarito.
    Isto não invalida a afirmação de que os oficiais militares eram classes apaniguadas do regime salazarista, bastando para tanto pensar no filtro que havia para admissão nas diversas escolas militares, que, como bem se sabe, só se abriam aos filhos dos «senhores».
    Quanto à afirmação de que os militares eram o sustentáculo do regime, isso é pura evidência, dado que é sempre função dos militares defenderem os países, sob os regimes que os regem e que lhes pagam. E no entanto, sabendo bem isso, era voluntariamente – e até com empenhos – que ingressavam na carreira das armas.
    Quanto ao espírito democrático que os animava, bem, aí basta pensar no RDM que cumpriam, e faziam cumprir com garbo, e não me parece que ele fosse propriamente um modelo de democracia, nem, evidentemente, podia ser.
    Quanto à ideia peregrina de o antigo regime considerar os oficiais do QP, não como elites, mas como sendo simplesmente carne para canhão, refuto, com esta simples pergunta, cuja resposta se revelará esclarecedora: - Em treze anos de guerra, quantos oficiais do QP morreram em combate?
    Quanto à honorabilidade das criaturas a quem os capitães vieram a entregar o poder político, basta pensar que, parte delas eram simpatizantes dos bandoleiros que assaltaram o Santa Maria e o Banco da Figueira da Foz. Lembras-te?
    «Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és»
    Também não devo a algum militar a liberdade, que sempre tive. As ditaduras que sofri - e que não conseguiram domar a minha liberdade - foram do meu pai, da minha professora, da polícia, da GNR, e evidentemente dos militares de carreira – à excepção do meu pai, todos privilegiados do regime - que, um dia, adormeceram ditadores e acordaram democratas. Não, do Salazar nunca sofri qualquer tentativa de condicionar a minha liberdade – antes pelo contrário, a única vez que recorri a ele, fui muito bem sucedido.
    Por outro lado, julgo que a liberdade foi, é, e será sempre, um artigo de luxo que todos querem, mas cujo preço poucos se dispõem a pagar.
    Então, e hoje ninguém ouve falar de governantes que tentam condicionar a liberdade de imprensa?
    Quem nasce com espírito livre, será sempre livre, e a quem nasce com espírito de escravo, ninguém conseguirá proporcionar-lhe a liberdade.
    Quanto à deturpação da história, deixa-me que te conte um pequeno mas muito simbólico episódio:
    -Nas comemorações do dia 25 de Abril deste ano, muitos alunos de escolas primárias, visitaram em Lisboa uma exposição alusiva à efeméride. Interrogada à saída – para uma cadeia de televisão - uma criança de 8 anos, sobre o que mais lá tinha apreciado, respondeu: - Foi, ver as fotografias da altura em que o Salgueiro Maia enfrentou o Salazar.
    Ora, isto terá sido o que a sua professora lhe explicara, desconhecendo ou não se lembrando, que em 1974 já o Salazar tinha morrido havia 5 anos.
    Vê a deturpação da história, que há tantos anos andam a ensinar às nossas criancinhas!...
    E isto tem ainda muito a ver com a tua última questão sobre repressão à liberdade de expressão. Só por deturpação histórica se faz crer que os portugueses em geral, não eram livres de se exprimir.

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  4. (...)
    No tempo do Salazar, a sociedade era essencialmente rural, e foi nessa sociedade que vivi até aos 20 anos de idade, sem nunca ter percepção da repressão pidesca de que tanto se fala. E, o que aconteceu comigo e contigo, aconteceu com mais nove milhões de portugueses – que só com o 25 de Abril descobriram a sua anterior falta de liberdade.
    Padecíamos afinal de estupidez, e não de falta de liberdade!...
    Por onde teria andado tanto burro, que vivera sem se aperceber da sua condição de escravo?...
    Havia repressão e não a víamos nem sentíamos, ou não havia realmente a tal repressão de que tanto se fala?...
    Ou ela só existia para os bandoleiros e simpatizantes –«chamem-se os bois pelos nomes» - que minavam a coesão da sociedade?...
    Enfim, meu caro Monte Duf, como as coisas nunca podem estar a contento de toda a gente, a ti, depreendo-te satisfeito com as conquistas de Abril, e eu, revelo-me desgostoso com a «desconstrução» social, que a corja tem operado, e com a sociedade que deixarão como herança para os meus netos.

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