Comemorações 2012,de Abril de 1974
Comemorou-se ontem mais um aniversário da revolução de
Abril de 1974.
A estas já habituais comemorações na Assembleia da
República, não compareceram, pela primeira vez, os principais homenageados –
revolucionários capitães de Abril – por só agora começarem a perceber e a ter
remorsos dos resultados que provocaram com a traição ao regime que tanto os
apaniguava. Sim, faziam parte das elites mais prestigiadas e privilegiadas do
regime, de que aliás foram o principal sustentáculo – em franco detrimento das
classes mais desfavorecidas.
Sentindo um dia porém, que o regime os afectava,
embora muito ligeiramente, nos privilégios que sempre lhes concedera,
resolveram provocar uma revolução, mandando para as «urtigas» o regime e as
ideias com que estavam comprometidos, e haviam sustentado e defendido.
Não, o Estado Novo nunca poderia ter-se mantido
durante quase meio século, se não sustentado ideologicamente pelas forças
armadas – com os seus oficiais à cabeça.
De qualquer maneira, se não tenho por esses militares
qualquer sentimento de gratidão, admiro-lhes a coragem e ousadia dessa acção,
recriminando-os porém por não terem medido as consequências do que se iria
passar com o abandono das nossas Províncias Ultramarinas, e por entregarem os
destinos do país, aos «indígenas» que tinham passado as suas vidas a combater a
unidade pátria, e que após a revolução se sentaram à mesa do orçamento do
estado, a lambuzar-se nos gastos das 800 toneladas de ouro que o Salazar nos
havia legado – fruto das muitas poupanças a que obrigara o Povo Português.
Acredito que a recusa da comparência no parlamento dos
militares de Abril, no dia do aniversário da revolução, terá tido como causa, o
facto de também esses militares estarem a ser um pouco afectados pela crise.
Tudo estaria certo se ela afectasse só os outros portugueses. Parece-me que
eles se sentem com direitos especiais, incluindo o direito à gratidão de todos
os outros indivíduos.
Nesta tomada de posição tiveram a solidariedade de
algumas das tais figuras, a quem, após a revolução, entregaram a «manjedoura»
do estado, para se fartarem.
Sim, parece-me que estas, tinham realmente razões para
lhes estarem gratas.
Arrogantemente, um militar de Abril, afirmou, já fazer
parte da história e pelas melhores razões… No lugar dele, não teria assim
tantas certezas!
A história que até agora se escreveu e que as
juventudes conhecem, é a história dos «vencedores»… Está por fazer, mas
acredito que se fará um dia, a verdadeira história, e aí se ficará a saber como
foi a nossa fuga de África e quais as consequências, o que aconteceu à nossa
marinha mercante e de pescas, à indústria naval, à siderurgia nacional, à
agricultura, e como se delapidaram os «comboios e comboios» de dinheiro vindo
da C E.
Numa palavra, aí se ficará a saber como chegámos à
tremenda crise que agora nos atingiu e que nos torna «mendigos» da Europa, bem ao contrário do antigo «orgulhosamente sós».
Será que nessa altura, os tetranetos do mencionado
senhor, não se envergonharão da história dos seus tetravós?...
Deixo a pergunta para a história.
Se, como povo, nos sentimos ufanos com a história da
nossa expansão pelo mundo durante séculos, e levantamos estátuas aos seus
obreiros, é forçoso que nos venhamos a sentir envergonhados de regredirmos até
ao espaço que ocupávamos no século XIII.
Com a desonestidade intelectual que julgo ser apanágio
de alguns dos nossos políticos, em alguns discursos das comemorações,
ouviram-se laudas à melhoria da educação, saúde, vias e meios de comunicação
etc., por comparação com o que havia antes da revolução dos cravos, como se
este progresso se lhe devesse…
Ora, isto é a negação de que podíamos evoluir na senda
democrática e do progresso, sem necessidade de qualquer revolução. Ou seja, é a
afirmação de que sem o 25 de Abril, teríamos ficado eternamente parados no
tempo, ao contrário do que, por exemplo, se passou na nossa vizinha Espanha.
Bem, e quanto à conquista da liberdade, tenho muitas
dúvidas se as pessoas hoje são mais livres, até porque julgo que a liberdade é
essencialmente um estado de espírito.
E os opressores continuam a andar por aí.
26/04/2012
Zé Macário