O que são frases célebres, slogans, ou ideias força? Francamente não sei.
Parece-me no entanto que são as frases a que a imprensa resolver atribuir muita importância.
Certo, certo, é que uma vez sublimadas pela imprensa, elas idolatram quem as pronuncia.
É assim que tem sido idolatrada a figura de Obama pelo seu «yes we can», ou – mais modestamente – a de Passos Coelho pelo seu «nós não vamos falhar».
O valor real destas frases é nulo, podendo no entanto ser prestimoso consoante o grau de credibilidade e confiança que lhes atribuirmos.
Obama continua ainda em estado de graça, enquanto a imprensa não resolver retirar-lho.
Parece também terem sido perfeitas, ou adoptadas como tal pela imprensa, todas as acções de Passos Coelho, desde a sua nomeação para primeiro-ministro. Até quando durará este estado de graça? Sim, há-de ser a imprensa que o determinará. Foi sempre ela que fabricou os ídolos, e foi também ela que sempre os «gafou, banhando-os em ácido corrosivo».
Assumo-me como um céptico e arrasto comigo o preconceito de que os indivíduos formados no seio dos partidos políticos, são só versados em malas-artes.
Sem alimentar quaisquer expectativas, quero no entanto dar ao novo primeiro-ministro o benefício da dúvida, tanto mais, que ele tem demonstrado um notório «crescimento pessoal» desde o início da campanha eleitoral, até agora. Isso é evidente e inegável.
Admitindo porém que ao fim desta legislatura o país conseguiria, mercê de muitos sacrifícios dos portugueses, ter as finanças públicas em dia, estaria nessa altura saturado de tanta contenção, e quereria mudar, votando nova e maciçamente no PS.
De que teria afinal servido tanta contenção e sacrifício, se um novo governo viria agora esbanjar toda a economia do país, como aliás é timbre de todos os governos daquele partido?
Note-se que, nem sequer a nossa vizinha Espanha viveu algum período de prosperidade económica sob a égide do partido homólogo.
Terminados os seus mandatos, os ministros do nosso governo cessante afirmam-se de consciência tranquila, pelo dever cumprido com empenho.
Eu diria antes que eles têm uma consciência extremamente laxa ou um extremo descaramento.
Ao mesmo tempo que nos conduziam ao abismo, entretinham-nos com as «questões fracturantes», não obstante os avisos do Sr. Presidente da República. Não o esqueçamos! Como não devemos esquecer os desperdícios, mais remotos, na construção de estádios desportivos, sem qualquer utilidade; ou ainda o sumidoiro de dinheiro que foi o projecto do aeroporto da Ota.
Então, e não se deveria proceder judicialmente contra estes indígenas, por eventual conduta dolosa?
Se e quando amanhã estivermos a passar por distúrbios como os que agora afectam a Grécia, estarão eles como observadores de bancada, rindo-se ainda nas nossas barbas. Mas enfim, somos o tal país dos brandos costumes!...
Além do mais, temos connosco ainda a grande pecha de o presidente da república não poder fazer de árbitro ao governo, pela sua falta de poderes para tal.
Tal como um pombo arrulhando no cimo dum campanário, também o presidente da república só pode falar, falar, falar… Avisar, avisar, avisar… Reclamar, reclamar…
Correndo porém sempre o risco de ninguém querer ouvi-lo.
A este propósito pergunto, por exemplo, se a «cooperação estratégica» do Sr. Presidente da República com o governo, evitou ou amenizou a crise em que o país está mergulhado?
Terá algum sentido que o mais alto magistrado da nação, jure cumprir uma constituição que o enrola, como que numa teia de aranha de onde não consegue libertar-se nem fazer-se ouvir?
Não terá o presidente Cavaco Silva sido vítima da sua própria «cooperação estratégica»?
Diz agora o Sr. Presidente da República: - Eu bem dizia há três, há dois e há um ano atrás, que estávamos a caminhar para o abismo, se a situação não se invertesse.
Sim, pergunta-se no entanto, o que valeu aquilo que ele disse? Valeu alguma coisa?
Com os poucos poderes que detém, o presidente da república corre sérios riscos de ver posta em causa a sua autoridade e ver mesmo a sua figura ridicularizada.
Todavia, para êxito da missão a que se propõem, desejamos agora que os diversos poderes que constituem o governo da nação – sendo todos da mesma família política – sejam capazes de dialogar e de se ouvirem mutuamente.
Zé Macário
30/07/2011