quinta-feira, 30 de junho de 2011

Anjos do Ar



Eram três ou quatro, estas enfermeiras pára-quedistas com patentes de oficiais ou sargentos, em exercício na Guiné, pelos anos de 1967 / 68.
Eram todas solteiras estas heróicas jovens, que ofereciam a vida e se «imolavam» ao serviço da pátria e dos militares em combate.
Em situações de tragédia e oferecendo muitas vezes o seu corpo às balas, prodigalizavam-nos consolo, calma, lenitivo para a dor, suturavam-nos, estancavam-nos hemorragias, administravam-nos os soros salvadores, reanimavam-nos, restauravam-nos a respiração, acompanhavam-nos ao hospital… Valentes mulheres aquelas!...
Nos momentos de maior tragédia, chamávamos por estes anjos salvadores e esperávamos ansiosos que descessem do céu, saíssem das suas naves, e nos socorressem, onde quer que estivéssemos.
Nunca chegavam tão depressa como o exigia a situação; e a espera era sempre desesperante.
Não obstante a sua dedicação e eficiência, tantas vezes no nosso desespero, as tratávamos mal, por não poderem corresponder em tempo, às urgências das nossas situações.
Queríamos, e queremos-lhe bem ainda hoje. Queríamos-lhe como pessoas de família e como nossos verdadeiros anjos salvadores, mas não deixávamos de proferir contra elas, todo o género de impropérios e «blasfémias», porque nessa altura não falava a voz da razão, mas tão-somente a voz da aflição.
Estabelecer com elas comunicação via rádio, era sempre um problema, pois os aparelhos de rádio parece que funcionavam a carvão.
Comunicar-lhes exactamente as nossas posições, era outro problema…
E os minutos – que pareciam horas – passavam, e a aflição para salvar os feridos, crescia, crescia…
Voltavam os impropérios, como se eles pudessem acelerar a marcha dos acontecimentos.
Quando finalmente chegavam, tudo era esquecido, para concentrar os sentidos no socorro aos feridos.
Elas ficavam com o sentimento de missão cumprida, e nós com um enorme sentimento de gratidão.
Às nossas queridas enfermeiras pára-quedistas vivas, em meu nome, e penso que em nome de todos os militares desse tempo da Guiné, agradecemos terna e eternamente o desvelo que protagonizastes.

BEM HAJAM, HEROÍNAS!


Zé Macário
30/06/11

Meadas


O que são frases célebres, slogans, ou ideias força? Francamente não sei.
Parece-me no entanto que são as frases a que a imprensa resolver atribuir muita importância.
Certo, certo, é que uma vez sublimadas pela imprensa, elas idolatram quem as pronuncia.
É assim que tem sido idolatrada a figura de Obama pelo seu «yes we can», ou – mais modestamente – a de Passos Coelho pelo seu «nós não vamos falhar».
O valor real destas frases é nulo, podendo no entanto ser prestimoso consoante o grau de credibilidade e confiança que lhes atribuirmos.
Obama continua ainda em estado de graça, enquanto a imprensa não resolver retirar-lho.
Parece também terem sido perfeitas, ou adoptadas como tal pela imprensa, todas as acções de Passos Coelho, desde a sua nomeação para primeiro-ministro. Até quando durará este estado de graça? Sim, há-de ser a imprensa que o determinará. Foi sempre ela que fabricou os ídolos, e foi também ela que sempre os «gafou, banhando-os em ácido corrosivo».
Assumo-me como um céptico e arrasto comigo o preconceito de que os indivíduos formados no seio dos partidos políticos, são só versados em malas-artes.
Sem alimentar quaisquer expectativas, quero no entanto dar ao novo primeiro-ministro o benefício da dúvida, tanto mais, que ele tem demonstrado um notório «crescimento pessoal» desde o início da campanha eleitoral, até agora. Isso é evidente e inegável.
Admitindo porém que ao fim desta legislatura o país conseguiria, mercê de muitos sacrifícios dos portugueses, ter as finanças públicas em dia, estaria nessa altura saturado de tanta contenção, e quereria mudar, votando nova e maciçamente no PS.
De que teria afinal servido tanta contenção e sacrifício, se um novo governo viria agora esbanjar toda a economia do país, como aliás é timbre de todos os governos daquele partido?
Note-se que, nem sequer a nossa vizinha Espanha viveu algum período de prosperidade económica sob a égide do partido homólogo. 
Terminados os seus mandatos, os ministros do nosso governo cessante afirmam-se de consciência tranquila, pelo dever cumprido com empenho.
Eu diria antes que eles têm uma consciência extremamente laxa ou um extremo descaramento.
Ao mesmo tempo que nos conduziam ao abismo, entretinham-nos com as «questões fracturantes», não obstante os avisos do Sr. Presidente da República. Não o esqueçamos! Como não devemos esquecer os desperdícios, mais remotos, na construção de estádios desportivos, sem qualquer utilidade; ou ainda o sumidoiro de dinheiro que foi o projecto do aeroporto da Ota.
Então, e não se deveria proceder judicialmente contra estes indígenas, por eventual conduta dolosa?
Se e quando amanhã estivermos a passar por distúrbios como os que agora afectam a Grécia, estarão eles como observadores de bancada, rindo-se ainda nas nossas barbas. Mas enfim, somos o tal país dos brandos costumes!...
Além do mais, temos connosco ainda a grande pecha de o presidente da república não poder fazer de árbitro ao governo, pela sua falta de poderes para tal.
Tal como um pombo arrulhando no cimo dum campanário, também o presidente da república só pode falar, falar, falar… Avisar, avisar, avisar… Reclamar, reclamar…
Correndo porém sempre o risco de ninguém querer ouvi-lo.
A este propósito pergunto, por exemplo, se a «cooperação estratégica» do Sr. Presidente da República com o governo, evitou ou amenizou a crise em que o país está mergulhado?
Terá algum sentido que o mais alto magistrado da nação, jure cumprir uma constituição que o enrola, como que numa teia de aranha de onde não consegue libertar-se nem fazer-se ouvir?
Não terá o presidente Cavaco Silva sido vítima da sua própria «cooperação estratégica»?
Diz agora o Sr. Presidente da República: - Eu bem dizia há três, há dois e há um ano atrás, que estávamos a caminhar para o abismo, se a situação não se invertesse.
Sim, pergunta-se no entanto, o que valeu aquilo que ele disse? Valeu alguma coisa?
Com os poucos poderes que detém, o presidente da república corre sérios riscos de ver posta em causa a sua autoridade e ver mesmo a sua figura ridicularizada.
Todavia, para êxito da missão a que se propõem, desejamos agora que os diversos poderes que constituem o governo da nação – sendo todos da mesma família política – sejam capazes de dialogar e de se ouvirem mutuamente.


Zé Macário
30/07/2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Caricato

Parecia um santo homem aquele sargento ajudante.
Perto dos cinquenta anos de idade, nunca antes teria feito nenhuma comissão de serviço no ultramar, tendo-lhe passado ao lado todas as guerras. Agora porém, aqui estava em Mansábá, (Guiné) integrado no Batalhão de Cavalaria B 1897.
Longe da mulher e dos filhos, e não sei mesmo se já de netos, por aqui arrastava os dias esperando pacientemente que o tempo passasse, aquele santo homem cuja actividade –
de índole administrativa -  nunca chegámos a perceber
Por ser muito reservado e não termos nenhuma afinidade na «acção», pouco convivíamos com ele, porém, respeitávamo-lo e estimávamo-lo, como camarada de armas, e mais ainda pela sua idade e bondade, do que propriamente pela patente.
Aliás na guerra é mesmo assim: as pessoas respeitam-se e estimam-se mais pelo espírito de coesão e camaradagem, eu diria mesmo de «familiaridade», do que pelas patentes.
Uma Companhia é um corpo, onde todos e cada um dos membros sente, jubila ou sofre com a alegria, a dor ou a morte de todos ou de cada um dos outros.
Um dia pela tardinha, o aquartelamento sofreu um audacioso ataque do IN («vulgo turras»)
Perante isto, toda a gente saiu do quartel, foi ocupar os abrigos, e reagiu estoicamente à ofensiva.
Rechaçado pela nossa contra-ofensiva, o IN bateu em retirada.
Ao reentrar no quartel, deparámo-nos com um quadro burlesco:
- O nosso amigo sargento ajudante, estava deitado debaixo da cama, todo borrado, a tremer de medo, e a cama coberta por várias chapas de bidões velhos
Sendo um homem de secretaria – como aliás a maior parte do pessoal do quadro permanente – e não um operacional das armas como a maioria dos milicianos, o seu pânico era muito mais forte do que o seu sentido de camaradagem.
O pânico turva a razão, pois este acto nem sequer foi consentâneo com o sentido de sobrevivência.
É engraçado como mesmo no meio de uma tragédia se podem encontrar motivos de riso e de chacota.
Este, serviu de chacota até ao fim da comissão de serviço.

Zé Macário
15/06/11

terça-feira, 14 de junho de 2011

Ilusionismo II

Após a queda do velho regime em 25 de Abril de 1974, provocada pelos filhos dos senhores que durante muitos anos mamaram na «vaca sagrada» (leia-se, regime da velha senhora), com a vilipendiosa expatriação dos vencidos, imediatamente se revelaram muitos outros dos ingratos filhos desses mamões, como candidatos a mamões de um outro regime, (o actual) que eles próprios – e à sua maneira - iriam implantar.
Para terem apoio popular nas suas pretensões, apresentaram-se como mestres na arte da ilusão. Entre essas criaturas, encontravam-se os vanguardistas do recém-formado «PS».
Dos seus primeiros discursos, retenho as ferozes críticas à pesada máquina administrativa do estado, e ao facto de este, ter deixado tantos portugueses emigrar, para irem criar para estrangeiros, a riqueza que aqui deviam gerar para nós; ou ainda à velha frase salazarista do «orgulhosamente sós».
Entronizados estes senhores, a máquina administrativa que criticavam, foi sempre aumentando de «peso» …
Aumentou a emigração das pessoas mais qualificadas…
Por três vezes, com eles na chefia do estado, recorremos aos «favores» do FMI, ou seja, passámos de «orgulhosamente» sós, para «vergonhosamente» hipotecados.
Mestria na arte do ilusionismo é a génese deste «PS».
O povo é no entanto o grande culpado destes fracassos, porque devendo já conhecer bem a índole daquele «partido», ainda tenta verificar de vez em quando – pelo voto - se já nele se alterou a hereditariedade.
Realce-se porém que de entre todos os governos «PS», os piores foram os pantanosos dos «guterristas» e os quiméricos dos «socratistas» (não confundir – por perigo de ofensa – com socráticos).
O povo, iludido, jubilou com a queda de um regime (o salazarista) de que se saturara ao fim de quase cinquenta anos…
Agora porém rejubilou com a queda de um governo de que se saturara em apenas seis.
Lamenta-se que este povo tenha de mergulhar na fossa para reconhecer os seus erros, mas lamenta-se muito mais -  por ser burrice absoluta -  cair tantas vezes no mesmo buraco.
Ou será fadário português a susceptibilidade de cair reiteradamente no conto do vigário?
No estertor da morte, o regime salazarista deixou-nos os cofres cheios de dinheiro, que ainda prodigalizámos ao longo de mais alguns anos…
 O «socratismo» deixou-nos depenados e desonrosamente hipotecados.
Os consulados «PS» traduziram-se num: olho vê, pé vai, e mão pilha, em que o serviço à pátria constou simplesmente da usurpação espartana, em proveito próprio, dos recursos de toda a comunidade.
Não deve inferir-se daqui que o autor deste desabafo é um salazarista inveterado.
Não, não é. Muito pelo contrário.
Sente porém um tremendo desgosto, por estes vendedores de ilusões terem tratado Portugal tão ignominiosamente, e pela certeza de que os vampiros voltarão, insaciavelmente vorazes e já metamorfoseados em necrófagos, para tragarem o cadáver que agora deixaram exangue e moribundo.
E porque hoje é dia de Camões, permitam-me invocá-lo:
-Ele ainda hoje diria: Esta é a ditosa pátria minha amada.
Envergonhar-se-ia porém de dizer, e não diria mesmo: Ditosa pátria que tais filhos tem.


Zé Macário
10/06/2011

sábado, 4 de junho de 2011

Perfídia


Em tempos idos, a prostituição era talvez o labéu de maior perfídia dentro de uma família. E por isso a família renegava naturalmente os seus elementos atingidos por este fenómeno, para não sujeitar os restantes ao convívio vitalício com uma imagem socialmente degradante.
É dever de cada elemento da família enobrecê-la e honrá-la, porque ela tem o direito e o dever de viver com orgulho e o respeito recíproco de todos os seus membros. Pelo que não tem que manter no seu seio, elementos que ostensiva e reiteradamente a desonrem.
E isto parece-me válido para qualquer tipo de família, incluindo a «família» política, ou seja, o partido.
À falta de melhor definição, a prostituição é o despojamento de valores morais, e consequentemente da dignidade humana, a troco de outros «bens».
Não sei se cabem nesta definição as atitudes de algumas personagens quase «mitificadas» de partidos, como por exemplo, a de um senhor fundador do CDS que fez campanha pelo PS, em cujo governo veio aliás, a ser nomeado ministro. Ou ainda a atitude de um outro fundador do mesmo partido – que fora nomeado para dirigir a  Agência para o Investimento -  ter aparecido agora a fazer campanha pelo mesmo PS.
Ou ainda a de um outro senhor que há menos de quatro anos quase incitava a uma revolta popular contra o primeiro ministro - como aliás já fizera noutra ocasião, contra outro primeiro ministro - e que agora aparece a apelar ao voto na pessoa que queria derrubada, com o argumento de que ela, é a única com experiência governativa.
Será só por trinta dinheiros que estas figuras traem aquilo que dizem ser os seus princípios, desonrando ou deslustrando a família que fundaram, ou de onde são oriundos?
Repito: Ninguém tem o direito – ainda que a troco de qualquer prebenda – de enxovalhar o nome de família.
E vejam lá a veleidade ou a arrogância de se pensarem tão importantes, que despertem mesmo assim em alguém, a vontade de os seguir ou de lhes seguir o exemplo!
O que mais custa porém, é ver este tipo de comportamentos em figuras «mitificadas» da sociedade portuguesa. Parece-me só comparável à ideia de ver num comício, uma prostituta a apelar à prostituição de todas as mulheres, como forma mais digna de viver.
Não, já não me impressiona que vendam a alma ao «diabo», o que ainda me espanta, é que – por causa exclusiva das suas benesses - tentem vender ao «diabo» a alma dos outros. Lamento também, e muito, que a essas personagens «mitificadas», o povo, e até a imprensa, quase tudo desculpem.
 Aplaudi veementemente a atitude do CDS de retirar a fotografia de um dos seus fundadores, da galeria das fotos dos seus dirigentes.
Da mesma forma aplaudi Marques Mendes, por não aceitar os corruptos como dirigentes de qualquer coisa em nome do seu partido. Sim, isto é que é não pactuar com a imundície, e não mandar os princípios às urtigas.
Claro que aquelas atitudes, são acções que a moral censura, mas que a retórica – pela sua própria natureza – pode facilmente desculpar. Mas não sejamos parvos…
Ética é ética e retórica é retórica!
Temos o dever de demonstrar activo repúdio por este tipo de comportamentos, ou então continuamos acaminhar todos para o monte do lixo.  

Zé Macário
03/06/11