domingo, 31 de julho de 2011

Malhadas Na Minha Terra

Era-me contado pela minha Mãe, mas não é de minha lembrança o tempo em que o cereal era debulhado, com burros caminhando em círculos sobre a eirada.
Já agora diga-se de passagem para quem não sabe ou não se lembra, que se chama eirada ao conjunto da palha para debulha, espalhada em ondas sobrepostas sobre toda a eira.
Lembro-me muito bem é das malhadas efectuadas a mangual – utensílio agrícola constituído por dois bocados de madeira (cabo e pírtigo), ligados por uma correia.
O pírtigo era mais grosso e curto do que o cabo (medindo cerca de cinquenta centímetros de comprimento por vinte de perímetro), enquanto que o cabo era da espessura e comprimento normal de qualquer outra alfaia.
Nos últimos dias de Junho as pessoas andavam pelas ruas da aldeia a juntar bostas de vacas – nesse tempo havia muitas – para amassarem com água e espalharem sobre as eiras de terra batida, formando uma crosta, que depois de seca impermeabilizava toda a área do recinto. Estava assim a eira pronta para a malhada.
 Pelos dias do mês de Julho, logo de manhã cedo, as mulheres da eira faziam a eirada, e pelas dez horas entravam os malhadores, quando a palha já tinha aquecido bem sobre a eira.
Posicionavam-se frente a frente (três contra três ou quatro contra quatro, e às vezes mais até) e davam início ao esforçado trabalho da malhada, que iria durar todo o dia.
Funcionavam quase como que num baile mandado, obedecendo à voz do mandador.
À voz de meia força, todos os pírtigos sincronizados faziam perpendicular ao cabo do mangual.
À voz de levantar pírtigos, sincronizavam-se em perfeita posição vertical.
E á voz de arrebimba o malho, os pírtigos iam da posição de assentados atrás das costas dos malhadores, em meia volta a toda a força, abater-se sobre a palha, fazendo tremer toda a eira.
Trabalho árduo aquele, só para os mais robustos e musculados, só para verdadeiros atletas!...
Havia também o moço da cabaça, sempre prestes e atento a dar de beber a quem precisasse   
As refeições eram várias e curtas, não só para matar o bicho – como se dizia – mas principalmente para fazer pequenas pausas no trabalho.
Quando se pensava que a palha já estava bem debulhada de um lado, os malhadores subiam ao penedo da eira, e dali gritavam como que em coro alentejano: - Àaaa eiiiraa!...
Ao ouvir este grito, todas as mulheres do povo acudiam à eira a virar a palha, enquanto os homens descansavam mais um pouco, para logo recomeçarem com vigor renovado.
Depois de bem malhada de ambos os lados, sacudia-se e retirava-se a palha, ficando no lar da eira, somente o cereal e os coanhos.
Os coanhos eram depois retirados com uns ancinhos de madeira, e no lar ficava só o cereal com a mais pequena sujidade intrínseca, que se juntava num monte, para mais tarde joeirar.
Para joeirar o cereal utilizavam-se umas pás de madeira, com as quais este era atirado pelo ar – o mais alto possível e em semi-circulo – de um canto para o outro da eira, para que qualquer brisa ao cruzar-se com ele no ar, levasse para longe todas as impurezas, que eram mais leves.
E pronto, estava realizada a malhada, que sendo um trabalho penoso, era dos mais alegres trabalhos agrícolas, por se tratar de colheitas.
Entretanto apareceram as malhadeiras e limpadeiras mecânicas, e então outro galo cantou! …

 Zé Macário


Confundido

Nasci em meados do século XX numa pequena aldeia serrana, rural e pastoril, do distrito de Viseu – numa sociedade fechada ao exterior, sem estrada, sem telefone, e onde a pouca informação chegava tarde e distorcida.
Os poucos ensinamentos que recebíamos eram os de uma comunidade de analfabetos, da professora primária (D. Natividade), e do pároco (Padre João Mendes) – este, visitava a aldeia uma hora, de 15 em 15 dias.
Esta comunidade era dotada de uma catolicidade intensa e irracional, que ia fazendo reflectir nos seus descendentes.
Assim, era-nos ensinada a existência de um Deus espiritual, pai, criador, mais velho que o mundo, omnipotente, omnisciente, omnipresente, e inexoravelmente justiceiro e vingativo.
Como intérpretes do seu pensamento e do seu querer, teria deixado junto de nós os seus ministros (padres) que nos informavam dos procedimentos que Ele nos exigia, e que tinham ainda o poder de nos indultarem o incumprimento de tais regras.
Para prémio pela prática do bem, criara o céu (lugar, onde depois desta vida se gozava eternamente).
Para castigo pela prática do mal, criara o inferno (lugar onde se sofria, ardendo eternamente).
Criara ainda um lugar intermédio (o purgatório) onde se expiavam – ardendo, durante algum tempo – alguns pequenos delitos.
O homem nascia já carregado com o peso do pecado original, sem que para isso tivesse praticado voluntariamente qualquer maldade.
E depois, ao longo da vida, quase todas as acções eram condenáveis, à luz do que os padres – «verdadeiros» intérpretes da vontade de Deus, do bem, e do mal - diziam ser a ordem do Criador.
Eram pecados não só tudo aquilo que é realmente mal, mas até os «maus pensamentos», tais como, pensar numa garota ou fantasiar com ela em pensamento, um simples beijo...
Dançar, por exemplo, era candidatar-se ao inferno.
Não obstante deus saber tudo sobre nós, para obtenção do perdão exigia também que, muito pesarosos e arrependidos, confessássemos aos seus ministros todas as «maldades» praticadas, ainda que fossem simples pensamentos involuntários e inconsequentes.
Para a confissão, era necessário ensaiar um ar muito compungido (aquele ar de quem, num velório, dá os pêsames à família do morto).
As pessoas chegavam a sentir arrependimento de não se sentir arrependidas. Como aliás ficavam muito intranquilas pela hipótese de ter deixado – por esquecimento – algum pecado por confessar.
Acredito porém que as ideias de prémio e de castigo contidas neste «código», terão regulado muitas relações humanas,
Assim, poder-se-ão ter evitado muitos roubos, muitos assassinatos, muitos assaltos, muita corrupção, muitos abusos sexuais, etc. etc. etc. E à procura de prémio, até se terá praticado muita solidariedade.
Com a revolução democrática, também o S. Pedro mandou todos os padres «mijar» para o inferno, e extingui-lo por alagamento.
Deus passou a resolver tudo pelo diálogo (assim, mais ou menos como o Guterres), e tudo passou a viver no reino das maravilhas.
Não, não acabaram os assassinatos, nem a violência doméstica, nem os assaltos à mão armada, nem a corrupção, nem as violações, mas parece terem deixado de ser crimes graves e puníveis com o inferno.
Hoje – tal como antigamente – tudo para mim é confuso…
De tal maneira confuso, que até me interrogo se as oliveiras que estão perto dos saramagos, são para os aromatizar, ou para amenizar a calor vindo de outro lado?

Zé Macário
25/07/11

Quem somos?

A população portuguesa está dizimada.
Não, já não somos as dez milhões de almas que rezavam as estatísticas.
Actualmente, o que não existe em televisão, não existe «realmente».
Estamos portanto reduzidos a umas centenas de indígenas, a contar por aquilo que aparece no ecrã mágico.
O que nós vemos em televisão, são sempre as mesmas figuras a opinar e a cagar retóricas sobre tudo.
Uma grande parte das vezes são «doutores» – especialistas disto, daquilo, e de tudo o mais – a dizer coisas muito «importantes», que, ditas por pessoas «normais», seriam classificadas de baboseiras ou simples banalidades.
E não se dão conta do ridículo sequer. Nem eles, nem quem os apresenta.
Os programas televisivos são só isto, ou então de entretenimento, em que se explora o «fado» e as lágrimas das «desgraçadinhas», vítimas de violência doméstica ou de outra coisa qualquer. E quanto mais a «desgraçadinha» chorar suas desventuras, maiores são as audiências – quase como no circo romano.
 Por isso, apela-se sempre a mais uma lagrimazinha!...
Vá lá, lacrimeje por favor! E se se consegue mais uma lágrima, até tem direito a uma salva de palmas.
Tenho mesmo muitas dúvidas, se estas «emoções» não são simples encenações «teatrais», ensaiadas e pagas pelas próprias televisões.
Para além destas, as presenças estão limitadas quase sempre às mesmas figuras – não sei se de falhados ou não – de advogados, médicos, psicólogos, filósofos, economistas, políticos, «artistas» etc, que aqui exibem suas habilidades como bichinhos amestrados, ou como animaizinhos exóticos do jardim zoológico.
Sim, as televisões exibem-nos como palhaços de circo e exploram as nossas ovações por eles em vida, e exploram o nosso pesar por eles até à exaustão, meses ou anos para além das suas mortes.
Ninguém lamenta, nem conhece aliás, as pessoas – muitas delas, trabalhadoras e criadoras de riqueza para o país – que morrem todos os dias nas estradas de Portugal, ou em acidentes laborais.
 Mas choram-se meses a fio as mortes de quaisquer desprezíveis nulidades sociais, que embora «angélicas» e inofensivas criaturas, têm uma vida social «realmente» fútil, ou mesmo inútil.
Não, não somos dez milhões de indivíduos nas suas diversidades pessoais, laborais, culturais …
Somos simplesmente aquela «realidade» que entra em nossa casa, pela televisão. O resto feneceu, apagou-se, escafedeu-se, não existe…
Os apresentadores das diversas televisões, convidam-se e elogiam-se mutuamente nos seus diversos programas, com vista à sua recíproca promoção social.
E o «Zé» – que afinal já não existe – ovaciona estes «profissionais» contadores de histórias, ou simples cagadores de retóricas.
E não o esqueçamos: - é em grande parte fruto da televisão, a educação das camadas jovens do país!
Não será fruto desta «educação» televisiva, por exemplo, o assassinato de Carlos Castro? Ou ainda a cadeia a que são condenados vários daqueles jovens, a quem um dia exploraram, acenando com a «fama»? Ou ainda a decepção de tantos jovens, que também assim cobiçaram construir as suas vidas sobre a fama do efémero televisivo?
Vivemos em tempos malévolos de uma terrível perversão dos jornalistas e de outros profissionais de televisão, que exercem o «direito» de reedificar universalmente o mundo à medida das suas pobres cabeças. E os resultados vão estando bem à vista!
Abre os olhos «Zé», que já é dia!
È poder a mais (e abuso de poder), para gente tão pobre dos miolos!

Zé Macário
29/07/2011

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Crise I

Parece que ainda continua o estado de graça de Passos Coelho.
Os passos, até agora dados por Passos para satisfação das sôfregas necessidades monetárias do Estado, não diferem das do costume de todos os governos anteriores, ou seja, se é preciso dinheiro, aumentam-se impostos.
As medidas acordadas e ora anunciadas – que acredito imprescindíveis – estrangulam a economia por muitos e bons anos.
É imperativo que o governo elimine as colossais e inúteis despesas do Estado, e que comece já a dar sinais fortes e claros, de que está interessado em fazê-lo.
Temo que – tal como todos os governos que o antecederam – padeça de heterotropia ou de falta de coragem.
No entanto, o povo não pode nem deve deixar de reclamar com todos os meios ao seu alcance, a contenção da despesa pública, aproveitando a crise para tornar o Estado mais económico, mais moderno e mais funcional.
Para além de forte contenção nas despesas sumptuosas e inúteis, deve proceder-se também a uma verdadeira reforma administrativa, prescindindo de dois terços dos funcionários públicos e tornando o outro terço muito mais operacional.
O que quero dizer – e isto sem sombra de dúvidas – é que se os serviços públicos pudessem ser exercidos sob administração de privados, seriam exercidos com muito maior eficiência só com um terço do pessoal.
Então nas câmaras municipais – percebe-se à vista desarmada – que a redução de pessoal poderia ser para um décimo – e com grandes ganhos de eficiência.
Em princípio, eu não acredito em líderes «paridos» pelos partidos políticos, porque julgo padecerem de «estrabismo congénito»; porém o povo, se quiser praticar uma verdadeira democracia participativa, pode obrigar os seus liders a corrigir a visão e a acção. Então faça-o! Com os meios que hoje tem ao seu dispor, não é difícil.
Isto, claro, na falta de líderes de ideias claras, crisólogos, e corajosos.
Esta intervenção não pode ser deixada a cargo dos sindicatos – hoje já só representantes da função pública, correia de transmissão dos partido, e a quem deve é ser limitada a acção – porque os sindicalistas são decrépitos, caducos, e estão agarrados como lapas, à defesa do seu «tacho».
As câmaras municipais parecem fazer gala de gastar perdulária e sumptuosamente os recursos públicos, como se estes fossem inesgotáveis.
É preciso pôr um travão em tudo isto, e o povo tem de o exigir, com todas as suas forças e meios, sabendo que do outro lado estão as forças que o não querem.
Sei quão polémico e controverso é este texto, porém sendo um apelo à coragem e acção popular, não podia ser de outra maneira. Repare-se que isto não é um apelo ao manguito, mas sim à acção.
É necessário e urgente acabar com a bagunça e com o desperdício.
Então, faça-se! Então, obrigue-se o governo a actuar nessa área!
Tem de ser o povo a exigi-lo activamente.
Repudiemos governos formados por «zarolhos»!
Passos, não podes esperar para o fim, para mostrares que és corajoso e capaz!...
Ou te afirmas já, ou os portugueses vão ter de suportar com mágoa – muita mágoa – muitos anos de sacrifícios inglórios!...

Zé Macário
22/07/2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Lembranças VI

Tanto, quanto a minha lembrança ainda me permite recordar, a história que vou contar passou-se num qualquer dia de um mês de 1967, quando cumpria a minha comissão de serviço militar na Guiné.
Estando o batalhão sedeado em Mansoa, duas companhias foram incumbidas de uma operação de «limpeza» na mata do Morés.
Deslocámo-nos ao anoitecer, estacionámos a meio da noite e aí pernoitámos, envolvidos pelo capim, numa clareira da orla da mata que íamos acometer.
Na retaguarda ficara a artilharia, com seus obuses preparados para cobrir a nossa progressão na arremetida final para o objectivo – desconhecido aliás na sua amplitude e natureza, mas, mais ou menos localizado. Sabia-se que em determinado sítio, havia intensa actividade do IN, não se sabendo porém a natureza das suas posições e instalações.
A uns 500 metros do perímetro onde pernoitámos, corria um riacho de considerável caudal e forte corrente, que sendo obstáculo ao nosso percurso, era forçoso atravessar a vau.
Ao alvorecer deparámo-nos com a visão de quatro ou cinco indígenas, que fingiam pescar distraidamente junto ao rio…O IN teria dado pela nossa presença, e mandado alguns avançados para atrair a nossa travessia exactamente para aquele sítio, e nós caímos no engodo. Quando nos preparávamos para a travessia, os falsos pescadores desapareceram.
Começámos a atravessar, e quando uma das companhias já estava quase toda na outra margem – estando por isso o nosso pessoal dividido entre as duas margens, e com muitos homens mesmo, em plena travessia do rio – fomos severamente fustigados por um infernal arsenal de fogo de toda a sorte, com destaque para as morteiradas e bazucadas, vindas algures da outra orla da mata à nossa frente.
 O IN, que estava invisível e protegido pela mata, massacrou as nossas forças, que se encontravam bem visíveis, a corpo descoberto, desprotegidas em plena clareira.
Sim, massacrou-nos durante bastante mais de uma hora.
A nossa artilharia começou a disparar, para demasiado longe porém, deixando o IN entre nós e a área de queda das granadas dos nossos obuses, que caíam a mais de trezentos metros para lá  da área da emboscada inimiga.
 Via rádio, fomos pedindo sucessivamente à nossa artilharia a redução da distância de tiro, e de tal modo foi sendo reduzida, que a determinada altura já éramos atingidos pelas nossas próprias granadas.
Tivemos alguns mortos e muitos feridos, mas conseguimos tomar o objectivo, que era afinal um hospital, já muito bem equipado. Todavia, já tinha sido abandonado pelo IN, ao ter-se apercebido da nossa presença por perto.
O que descrevo é resumida e sinteticamente um episódio, pois, o drama – sendo indescritível – fica entregue à imaginação dos leitores, ou simplesmente vai connosco para a tumba.
É na guerra, e em situações de maior tensão, que melhor se conhecem as qualidades e os defeitos humanos, tais como: - a competência, a capacidade de liderança, o sentido de responsabilidade, a coragem, o arrojo, o ânimo, a camaradagem, o medo, a cobardia, a traição…
No entanto, se algum ensinamento se pode trazer da guerra, é para ensinar aos nossos filhos e netos, a serem sempre construtores da paz.

03/07/11
Zé Macário