O meu pai era um homem profundamente religioso.
Entendia como sobrenaturais todos os fenómenos naturais que não compreendia, e submetia-se, temente, com toda a humildade e respeito, a essas forças.
Quando eu era miúdo, ele ia à noite para junto da minha cama, ensinar-me orações e jaculatórias, quase sempre rimadas, que eu repetia, sem compreender.
Vivia a religião, pela fé profunda que o caracterizava, sem qualquer necessidade de compreender aquilo em que acreditava, e – tendo memória de gravador – tudo reproduzia tal como o ouvia.
Ensinava-me portanto também, muitas histórias, tal como as tinha gravado de quem lhas tinha contado.
Entre as histórias que me contava, estava a seguinte:
- Os anjos eram originários de gotas de água, que se espalhavam quando Deus lavava a cara, ou seja, todas e cada uma das gotas, que caíam da cara de Deus quando Ele a lavava, davam origem a um anjo.
Ora se eu acreditava que Adão fora feito de barro, e Eva de uma sua costela, porque não acreditar que tais gotas de água originassem anjos?
Os anjos viviam no céu, com Deus, na harmonia e paz dos anjos.
Um dia porém, o chefe dos anjos, um tal Lúcio, cansado de estar bem e sedento de poder, chefiou uma pequena revolta contra o seu criador.
Em face disto, Deus expulsou-o do céu, com todos os seus acólitos, isto é, com todos os que tinham aderido à revolta.
Este, tomou outro nome (Lúcifer), e transformando-se todos em demónios, foram fundar o inferno.
Assim, o Lúcifer – demónio, diabo, satanás, mafarrico, ou lá o que é, será eternamente o chefe dos infernos, para onde tenta arrastar toda a gente, afim de viver lautamente e sempre à lareira, quentinho, à custa dos impostos que lhe lança.
Ora, essa criatura e todos os da sua legião, têm por missão, andar sempre a tentar-nos, com promessas e falinhas mansas – assim como os políticos em campanha eleitoral.
Nem Jesus Cristo escapou à sua tentação!
Ensinaram-me mais tarde porém, que o sinal da cruz, ou a aspersão com água benta, afastam a acção destes mafarricos, tal como o alho, afasta a acção dos vampiros, deixando assim de infernizar a vida das pessoas.
Tenho dúvidas sobre a eficácia destes remédios, pois sinto que mesmo depois de me persignar, continuo a ser tentado.
Enfim, na dúvida, vale mais ir sempre tomando o remédio.
Zé Macário
30/03/2011


