quinta-feira, 31 de março de 2011

A Revolta dos Anjos

O meu pai era um homem profundamente religioso.
Entendia como sobrenaturais todos os fenómenos naturais que não compreendia, e submetia-se, temente, com toda a humildade e respeito, a essas forças.
Quando eu era miúdo, ele ia à noite para junto da minha cama, ensinar-me orações e jaculatórias, quase sempre rimadas, que eu repetia, sem compreender.
Vivia a religião, pela fé profunda que o caracterizava, sem qualquer necessidade de compreender aquilo em que acreditava, e – tendo memória de gravador – tudo reproduzia tal como o ouvia.
Ensinava-me portanto também, muitas histórias, tal como as tinha gravado de quem lhas tinha contado.
Entre as histórias que me contava, estava a seguinte:
- Os anjos eram originários de gotas de água, que se espalhavam quando Deus lavava a cara, ou seja, todas e cada uma das gotas, que caíam da cara de Deus quando Ele a lavava, davam origem a um anjo.
Ora se eu acreditava que Adão fora feito de barro, e Eva de uma sua costela, porque não acreditar que tais gotas de água originassem anjos?
Os anjos viviam no céu, com Deus, na harmonia e paz dos anjos.
Um dia porém, o chefe dos anjos, um tal Lúcio, cansado de estar bem e sedento de poder, chefiou uma pequena revolta contra o seu criador.
Em face disto, Deus expulsou-o do céu, com todos os seus acólitos, isto é, com todos os que tinham aderido à revolta.
Este, tomou outro nome (Lúcifer), e transformando-se todos em demónios, foram fundar o inferno.
Assim, o Lúcifer – demónio, diabo, satanás, mafarrico, ou lá o que é, será eternamente o chefe dos infernos, para onde tenta arrastar toda a gente, afim de viver lautamente e sempre à lareira, quentinho, à custa dos impostos que lhe lança.
Ora, essa criatura e todos os da sua legião, têm por missão, andar sempre a tentar-nos, com promessas e falinhas mansas – assim como os políticos em campanha eleitoral.
Nem Jesus Cristo escapou à sua tentação!
Ensinaram-me mais tarde porém, que o sinal da cruz, ou a aspersão com água benta, afastam a acção destes mafarricos, tal como o alho, afasta a acção dos vampiros, deixando assim de infernizar a vida das pessoas.
Tenho dúvidas sobre a eficácia destes remédios, pois sinto que mesmo depois de me persignar, continuo a ser tentado.
Enfim, na dúvida, vale mais ir sempre tomando o remédio.

Zé Macário
30/03/2011

Macário – O Almocreve

Transmitidas por tradição oral através dos tempos, a História e as histórias, chegam por vezes até nós, já muito deturpadas, quer na forma, no conteúdo, ou nos protagonistas.
No entanto, foi assim que o meu pai, muitas vezes, me contou esta:
- Macário era um almocreve, casado, que vivia numa aldeola perto de Atenas, em perfeita harmonia com toda a família e vizinhos.
Porém, ao regressar um dia, de uma das suas longas viagens, encontrou um homem dormindo na sua cama.
Furioso, por se sentir traído na fidelidade que a sua amada lhe devia, desferiu sobre aquele corpo, várias machadadas, assassinando-o.
Correu à procura da mulher, para lhe fazer o mesmo, e ao encontrá-la, esta relata-lhe:
- O teu pai chegou aqui muito doente e tremendo de frio.
Fiz-lhe um chá e agasalhei-o na nossa cama, por ser a mais confortável da casa, e agora está melhorzinho e dorme descansadamente.
Macário acorda da cólera que o cegara, e exclama:
- Ai de mim, que matei o meu pai!
Para expiar o seu pecado, vai para o meio de um rio, transportar gratuitamente, às cavalitas, pessoas, de uma margem para a outra.
Aconteceu porém que um dia, ao transportar uma criança, as pernas quase lhe vergavam com o peso. Apreensivo, tentou ver a cara daquela pequena criança. Porém, vinda de cima dos seus ombros, uma voz lhe dizia: - Não tentes ver-me o rosto, porque um assassino não é digno de ver o rosto do seu Deus.
Ainda retorquiu: -Parece que levo em cima de mim o peso do mundo!
A mesma voz respondeu-lhe: - Não levas o peso do mundo, mas sim o peso de quem o governa.
Todavia, expiada a pena que ele próprio se impôs, tornou-se santo – com direito a altar e tudo - enriquecendo assim o longo cânon dos santos da igreja.
 E assim ficamos com o São Macário, de cujos milagres o meu pai nunca me falou.
Contudo tenho a impressão que a história que meu pai me contava não era a de São Macário, mas antes a de São Cristóvão.
Quem conta um conto, acrescenta um ponto!

Zé Macário
30/03/2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sortilégio

Estávamos em meados da década de 1950.
O alcunhado Russo, cujo nome próprio eu não conheci, e foi o actor a quem atribuo o papel principal desta história, era natural e residente de Meijinhos.
Era um rapaz com fama de temível desordeiro, que infundia medo às pessoas, até mesmo às forças da ordem pública.
Conhecia a sua fama de homem mau, fama que se estendia às redondezas, mas só tive o desprazer de o ver uma vez ou duas.
Pois este herói das dúzias, casou-se com uma rapariga do Travasso, pequena aldeia hoje desaparecida, mas onde nessa altura muravam meia dúzia de famílias miseráveis, e que fizera mais essa miserável aquisição.
Logo terão começado os desacatos com a vizinhança, e com a própria esposa, de modo a trazer toda a gente tolhida de medo.
Pois um dia, a mulher, apavorada e farta de o aturar, terá comprado – ou pelo menos, isso era voz corrente na altura – por oitenta escudos, os serviços de seu pai, de seu irmão, e de dois primos, para que lhe liquidassem o marido.
E assim aconteceu.
Um dia, enquanto o Russo dormia no quintal da sua casa, à sombra de uma figueira, os contratados caíram-lhe em cima e assassinaram-no.
Depois transportaram o cadáver até meio caminho entre o Travasso e a Quinta do Pereiro, onde o deixaram acompanhado de um saco de feijão verde, para desviar suspeitas do assassínio, para alguém que porventura o tivesse encontra a roubar feijão.
No entanto, investigações policiais, cedo descobriram os autores do crime, não tendo porém conseguido provar a cumplicidade da mandante.
Embora tudo apontasse para a sua cumplicidade, esta não foi provada pelo tribunal, nem nunca denunciada pelos executantes.
Julgado o crime, os réus foram todos condenados a vinte e cinco anos de prisão efectiva, e a oitenta e cinco mil escudos de indemnização à viúva, que por acaso estava grávida.
O engraçado da história, é que a viúva só tinha pago oitenta escudos pela encomenda do crime, e os réus que o executaram eram agora condenados a pagarem-lhe oitenta e cinco mil escudos.
Com certeza que ela nunca receberia os oitenta e cinco contos, porque eles eram miseráveis demais para que algum dia lhe pudessem pagar, mas lá que foram condenados, foram.
A cidade de Lamego encheu-se de gente das redondezas para assistir ao julgamento, porém, nem um décimo coube na sala do tribunal.  Eu estive lá.


Zé Macário
28/03/11

A Minha Avó


A minha avó, Maria Duarte, da Póvoa, era uma «plebeia» com porte altivo, polido e aristocrático.
Era uma mulher alta, esbelta e bonita, que, enquanto jovem solteira, deveria ser a fina flor lá da terra. Embora muito arisca, não lhe terá faltado pretendentes.
Pelo contrário, o meu avô, Joaquim Gonçalinho – por alcunha o Rangeta – embora atrevidote, era uma fraca figura, baixo, enfezado, de um cabelo muito raro…
Calhou porém ao meu avô, caçá-la em boa maré, num trigal, onde ambos se terão rebolado e onde ela, gulosa, terá engravidado, só com as cigarras por testemunhas e batendo palmas.
Depois só tiveram de apressar o casamento, para evitar o escândalo.
Ora, a minha querida avó teria sido empregada doméstica, na Régua, na casa de uma família de bem, de ascendência aristocrática. E aí aprendeu a ler e a escrever bem – o que, para a época e para o sítio, era algo de muito importante, tanto mais que era a única pessoa com tal atributo – para além de se ter tornado uma excelente cozinheira.
Era alegre, de verbo fácil, e raciocínio rápido.
Óptima contadora de histórias e de anedotas, ria-se destas, mesmo antes de acabar de as contar. Chegou mesmo a escrever-me uma peça de teatro.
Até aos noventa e dois anos – e graças a Deus, com boa visão – todos os dias, fazia pelo menos duas horas de leitura, sendo o absoluto oposto dos seus irmãos que – ao que se diz – eram três grandes broncos.
Os cozinhados que saíam das mãos daquela bendita senhora, eram de sabor divinal, e tentou passar às filhas essa arte de bem cozinhar. Estas, porém, embora boas cozinheiras, ficaram a milhas da sua mãe.
A minha avó – que muito cedo ficou sozinha, por ter enviuvado nova – cozinhava a lenha, normalmente no chão, nuns pequenos pucarinhos de barro preto, e eu, sempre que podia, escapava-me aos meus pais, para ir atrás do cheiro que ressoava da sua cozinha.
Não tenho avó há muitos anos, no entanto, sempre que me cheira a boa cozinha, vem-me há memória a sua imagem.
Na Póvoa, a Ti Maria Duarte, é também lembrada ainda hoje, pelos seus ditos acertados, espontâneos e instantâneos.
Era também esta mulher de «armas», que estava sempre à cabeceira dos moribundos, lendo-lhes o livro da agonia, tentando assim suavizar-lhes a morte. Mesmo quando já não sabia se estava a ser ouvida, continuava a leitura, até ter a certeza, de que a morte tinha enfim consumado o seu trabalho.
Por isso, muitas das vezes que a recordo ou sonho com ela, vejo a sua figura entre poldras, no meio de um rio, ajudando as pessoas a atravessar confiantes, de uma margem para a outra.
Foi com certeza por todas as suas acções, que ela se perpetuou tanto na memória das pessoas, especialmente na minha.

Zé Macário
28/03/11



quinta-feira, 24 de março de 2011

Urge Mudar

Desde o consulado de A. Guterres (picareta falante), que Portugal começou a sua queda abrupta para o abismo.
Este senhor acenou ao povo com a bandeira do não pagamento das portagens, e o povo votou nele, quando deveria saber que temos de pagar os bens que adquirimos.
O discurso deste senhor – se bem se lembram – era o do «rigor» e do «diálogo», e o de que eram históricos todos os seus actos.
Dizia sempre aquilo que sabia que o povo queria ouvir.
Esteve sempre desatento ao funcionamento da justiça e ao alastramento da corrupção.
È do seu tempo o aparecimento do caso Felgueiras, e não esquecemos a forma como foi tratado.
Com todo o seu «rigor» e «diálogo», foi sempre descendo rampa a baixo, e nós com ele, até entrarmos de meio corpo, no célebre pântano de águas fétidas. Livramo-nos dele, mas mesmo assim oferecemos-lhe como prémio pelos serviços prestados, uma representação internacional.
Veio o Barroso (cherne), e ao ver que estávamos de tanga, largou, mas não, sem antes ter obtido também uma representação internacional.
Sucedeu-lhes Sócrates (trocas-te ou engenheiro relativo). Manipulador, de verbo fácil – diria mesmo, de muito fácil verborreia – e gesto bem estudado. Criatura de lata, como o feiticeiro de Oz.
Também este auto convencido indígena, começa sempre os seus apologéticos discursos por, não há melhor maneira de
Acena ao país com a bandeira da criação de 150000 empregos, sabendo bem ser ideia inexequível, mas sabendo também que esta promessa era uma sinfonia, para os ouvidos do povo.
Incompetente e alheio aos verdadeiros problemas da governação, entreteve-se naquelas brincadeiras de mau gosto, a que chamou questões fracturantes, isto é, legislação sobre questões de «paneleiragem» e afins, e incentivou o «deboche». E o povo foi atrás, continuando a afundar-se no pântano até à submersão final.
Ora, se o que estes senhores diziam em campanha eleitoral, era evidente mentira, e o povo os seguiu, quer dizer que ou estamos perante um povo estupidificado, ou que gosta de ser enganado.
Vários especialistas credíveis, alertaram para a impossibilidade de manter o monstro deste estado mastodôntico, mas o povo bateu palmas e a farra continuou.  
Era larguíssima a estrada que levava à felicidade, e todos entraram na pândega, contraindo empréstimos e mais empréstimos, – empenhando tudo o que tinham e o que não tinham. Até os salários futuros, para fazerem férias agora.
Com a certeza de que atrás viria quem haveria de pagar.
 Hoje gritam “oh da guarda!”, quando lhes pedem contas, porém, quem gasta sem conta, vive sem honra!
Alguém bem avisado, terá dito há muitos anos que é estreitíssimo e cheio de escolhos, o
caminho  da salvação, e que o contrário levará sempre à perdição.
Mais uma vez, nas próximas eleições, o povo irá votar maioritariamente em quem lhes apresentar o caminho mais fácil, e o declínio continuará. É a nossa sina!...
Quando ainda havia a ideia de Pátria e de Nação e nos julgávamos actores de um destino comum, o nosso povo nunca regateara esforços aos seus lideres para honrar e dignificar o país, como se pôde ver pela resposta de toda a nossa juventude ao chamamento para as guerras de África.
Há também uma grande falta de verdade no exercício do sindicalismo, que aliás mantém como lideres, as mesmas pessoas – olhando só para o seu umbigo – desde o 25 de Abril de 1974.
A cultura do individualismo, hoje bem presente no nosso povo, faz com que cada um tente salvar-se sem olhar a meios, ou tendo-os todos como legítimos. È o salve-se quem puder! É a balbúrdia!
Há dias, o país ficou admirado com a manifestação da denominada “Geração à Rasca”
Eu pergunto:
- Acaso esta geração tentou molhar as barbas e criar um partido político ou uma outra qualquer associação com personalidade jurídica – diferente das existentes, evidentemente – para tentar correr de vez com os políticos que sempre nos têm governado?
É tempo, meus amigos, de acordar!
Com os partidos que existem, o país não tem solução.
O vosso tempo chegou! Acordem! Façam alguma coisa! As coisas só mudam, mudando.
Noutros tempos a história acontecia, hoje porém, a história fabrica-se.
Jovens de Portugal, fazei a história acontecer!

Zé Macário
24/03/2011


sexta-feira, 18 de março de 2011

Quem sou?


Muitas vezes me tenho colocado a mim, ou a um qualquer alter ego, a seguinte pergunta: Quem sou?
Serei realmente quem penso que sou? Sou antes quem tu pensas que sou?
Alguém me confidenciava a propósito de um artigo meu: Nunca te imaginei com aquele tipo de sensibilidade…
Então, eu não sou quem aquele amigo sempre pensou que eu sou, e ele construiu de mim, uma imagem distorcida…
Porém, que certeza tenho eu também, de ser quem eu penso que sou?
O que será mais importante e real na minha existência, quem eu penso que sou, ou o que o outro, ou a comunidade pensam de mim?
Por exemplo, eu penso ser sério, cumpridor e honesto; Porém se a comunidade ou o outro, tiverem de mim uma ideia diferente, eu não consigo em qualquer lado obter o crédito necessário para a pessoa que julgo ser. Logo o que a comunidade pensa, passando a ser um estorvo ao meu ser, me torna naquilo que eu não sou.
Há muitos anos atrás, em Atenas, um outro Sócrates que não o nosso, arguido de um julgamento que durou vários dias e noites, em vez de argumentar a sua defesa, fazia antes a apologia do Eu, embora com a certeza absoluta de que não iria mudar nada no veredicto daqueles juízes, por eles já terem formado por antecipação uma opinião contrária à sua essência, ao seu eu, e a verdade é que este amigo acabou condenado à morte, tal como previra e afirmara, por ter sido mais importante a imagem preconcebida daqueles juízes, do que o que ele sabia de si próprio. De nada lhe valeu a sua honorabilidade, seriedade, e honestidade, porque a realidade da sua existência passou a ser a realidade que os outros lhe construíram.
Devo então ser quem sou, ou antes esforçar-me por construir de mim a figura que julgo ser do agrado do outro? Que realidade teria afinal essa outra figura? Terá algo de real a realidade que outros constroem do meu eu, ou de um qualquer alter ego, perante a complexidade e intimismo do meu pensar, agir e reagir?
Se a opinião dos outros acerca de mim, faz que seja o que não sou, ou que não seja o que sou, então não há realidade em mim, porque essa realidade depende da visão dos outros.
Porém o olhar dos outros não pode trespassar o muro que veda o quintal da minha intimidade, com todo o seu labirinto de complexidades.
Penso ainda que tentar ser o que os outros querem, é aniquilar a minha personalidade, ou seja, desvirtuar os caracteres ou características que me tornam pessoa.
Porém, depois deste pequeno exercício de pensamento, continuo perguntando: Quem sou afinal?
Acredito ser simples criatura de um Deus Maior, orgulhoso de ser pessoa, e capaz de fazer perguntas que nunca verei respondidas.

Zé Macário
Santa Iria da Azóia

A Parábola




Em certa altura da sua vida, e numa severa crítica à avareza, disse Jesus Cristo aos seus discípulos:
É mais fácil entrar um camelo num buraco de uma agulha do que um rico no reino do céu.
Nunca ao longo de vinte e tal anos tinha compreendido a utilização da figura do camelo, naquela asserção.
Embora percebesse o sentido e o exagero da alegoria, não conseguia perceber a lógica da utilização da figura daquele animal. Porque não utilizar a figura de um elefante, de um hipopótamo ou de um rinoceronte?
E que ideia maluca de querer enfiá-lo no buraco de uma agulha? E para quê?
Só aos 25 anos, com a aprendizagem de vários termos técnicos de marinhagem, vim a saber que um camelo é afinal a corda mais grossa de um navio e que serve para amarração deste, à muralha do cais onde atraca.
Disse corda mais grossa, porém disse mal, pois a esta corda como a todas as outras num navio, se chama cabo, à excepção de meio metro, preso ao badalo da sineta na proa do convés.
Com a revelação de que uma corda muito grossa é um camelo, fizera-se luz na minha cabeça, e ficara esclarecida a figura do camelo na imagem daquela alegoria.
Sim, agora havia lógica e tudo fazia sentido.
Enfim, o tempo que um homem leva a aprender coisas tão simples!..
Também há pouco tempo, numa visita pascal, o reverendo pároco me ensinou que, Macário, é derivado da palavra grega Macárius e que significa homem de sorte.
No caso do meu pai, o significado correspondia mesmo à verdade, pois ele era um gigante que tinha e espalhava sorte, por onde quer que passasse.
Devia fazer-se-lhe uma estátua, mas não há na Póvoa pedra com tamanho suficiente, para esculpir um gigante daqueles, e com uma alma ainda maior!..

Zé Macário

Retrato



Enquanto miúdo, invejava as pessoas da cidade de Lamego.
Invejava os penteados, os vestidos sem remendos, as gravatas, as camisas lavadas, e até as mãos lavadas e brancas.
Invejava os calções dos garotos da minha idade, que, comparados com as minhas calças de remendos, eram um luxo…
O que porém mais invejava, eram os “inhos” daquela gente.
Havia Manelzinhos, Zézinhos, Quimzinhos, Paivinhas, Miquinhas, Teresinhas, Laidinhas, Lourdinhas… Tudo, coisas que não havia na aldeia.
E a atitude da gente da aldeia perante a da cidade, era uma atitude de visível submissão.
Hoje, esbateram-se muitas diferenças, tendo permanecido porém o “inho” dos citadinos lamecenses.
Não conheço em todo o país outra cidade, com uso de tantos diminutivos.
Será sempre a cidade dos jeitinhos, dos favorezinhos, das palavrinhas, dos momentinhos.
Se quiserem perceber melhor este fenómeno, oiçam na rádio, um qualquer programa de discos pedidos, com dedicatórias.
Também não deve haver no país, cidade com tantos cafés e com tão altos preços de trespasses e alugueres, se bem que estes estabelecimentos estão sempre cheios de clientes.
Não, neste sector nunca haverá crise.
Mais que os alentejanos, os lamecenses têm absoluto desprezo pelo tempo; o que não se faz em dia de Santa Luzia, faz-se ao outro dia.
Quando se entra num qualquer estabelecimento, se o funcionário ou funcionários, estiverem com alguém em qualquer conversa da treta, é preciso tossir alto, várias vezes, até que dêem pela nossa presença
Certamente não haverá também no país, automobilistas mais respeitadores das passadeiras para peões, pois param em todas, ainda que não haja pessoas para passar.
Tal respeito pelos outros, não evidenciam, quando param e abandonam despreocupadamente os veículos no centro de qualquer rua da aldeia, estorvando a passagem de outros.
Recordo-me ainda de esta cidade ser habitada maioritariamente por militares, polícias e padres, de tal forma que se temeu a sua extinção, quando no final da década de 1950, terminou ali a actividade do regimento de infantaria 9.
Hoje não é tão evidente a presença de militares, dos padres sabe-se menos por terem deixado de usar farda, e quanto a polícias, são tantos que até estorvam – aliás, estorvam sempre. Normalmente os bancos da avenida principal, estão desde manhã cedo, ocupados por polícias reformados.
Parece que, por deformação profissional, têm dificuldade de comunicar com outra gente, e por isso se procuram mutuamente, para manterem entre si a conversa em dia
Uma coisa que também nunca percebi, é como esta cidade com uma indústria tão diminuta, mantém um comércio tão pujante.


Sta Iria
Zé Macário
23/02/2011

Telhados de Vidro




Adão, terá ficado tranquilo depois de ter comido o fruto proibido, convicto talvez de que só três criaturas teriam presenciado a sua desobediência, e que um interesse comum manteria secreto o seu acto.
Porém, quando o Senhor passeando pelo jardim do Éden, e não o vendo, o chamou,
percebeu imediatamente a sua nudez, ou seja, a revelação do seu segredo.
Principalmente quando pensa estar ao abrigo de conhecidos olhares indiscretos, o homem – todos os homens – praticam acções não recomendáveis pela sociedade ou pela sua roda de amigos.
Todavia, nunca alguém está abrigado desses olhares.
Por isso, pode acontecer que quando menos se espera, sejamos confrontados com uma foto nossa a coçar o cu, a meter o dedo no nariz, eu sei lá…
Não temos nunca a noção das pessoas que nos conhecem, e muito menos, do que elas observaram, sabem ou julgam saber de nós.
Estamos no entanto certos, de que acerca do outro, sabemos isto e aquilo – coisas até das mais íntimas e que ele pensa não serem do conhecimento de ninguém.
É impressionante o que nós sabemos do outro… Possivelmente a justa medida do que ele sabe de nós.
Por isso, não nos é lícito fazer julgamentos do próximo, inclusivamente para não o condenarmos por actos que nós próprios praticamos – ou praticaríamos no lugar dele – mas que julgávamos ser de desconhecimento público.
Sim, todos nós temos o nosso calcanhar de Aquiles, ou uma qualquer pedra no sapato, e quando alguém nos interpela, podemos sentir-nos imediata e absolutamente nus – despidos das tais secretas intimidades que julgávamos tapadas com «pedra tumular».
Ter falhas, é próprio da condição humana, e é bom que as minhas, não sejam apontadas pelo outro, que também as tem, e que eventualmente também conheço.
Não estou a falar para outrem, mas simplesmente para dentro de mim.

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Sta Iria
Zé Macário

A Vela Mágica




Recebi aos dezoito anos de idade, uma vela que havia sido fabricada treze anos antes de eu nascer.
Foi-me oferecida embrulhada em papel de celofane, dentro de uma caixinha lacrada, com data de fabrico – que, traduzida em linguagem de enólogo, diria, reserva especial de 1931. Tinha um laçarote a enfeitar, e um cartão com um recado: - estima-a, porque é especial.
Desfiz o laçarote, quebrei o selo, abri a caixinha, e logo se acendeu – qual lâmpada de Aladino – aquela vela, há trinta e um anos fechada na beleza daquele invólucro.
Irradiava uma luz estranha, como estranho é tudo o que é mágico… Iluminava sem iluminar, e iluminava-se sem se iluminar.
Brilhava ao longe a chama desta vela, que, ardia sem se consumir, e que não iluminando, iluminava.
Também, tal como com a lâmpada de Aladino, extremamente sensível aos afagos, logo se cumpriam em mim todos os desejos, sempre que com ternura a afagava.
Brilhou com a mesma intensidade durante quarenta anos – tantos, quantos o povo judeu vagueou pelos desertos, a caminho da terra prometida.
Um dia porém, ganhou morrão o pavio daquele círio, e continuando a emitir algum brilho, não mais iluminou ou se iluminou.
Começou agora a derreter a cera da vela, cujo pavio sempre ardera sem se consumir, e sente-se já muito mais escuro, aquilo que nunca fora iluminado.
Aumenta o morrão, derrete-se a cera, e é menor todos os dias o brilho daquela chama; só agora percebendo como ela me iluminava, com a sua simples existência, e como eu gosto dela.
O amor é chama que arde sem se sentir e sem se ver, e só com a perda do objecto amado, se percebe afinal como se amava, e como é dura a dor da perda.
Oh, como eu gostava, de continuar a ter o brilho daquela estrela!...







A Lenda da Alcateia



Tem séculos esta história, contando-se puída de repetida, nos serões das longas noites de Inverno à volta da lareira, entre as diversas histórias de terror, de lobos, de lobisomens, bruxas e feiticeiras, que embalavam, encantavam e atormentavam a minha meninice.
È de Magueija o Albino e de Parafita a Carminda, sua conversada - por quem aliás morre de amores…
É tempo de recolha do milho – base da sustentação das gentes desse tempo – e há desfolhadas e debulhas em Parafita.
Em magueija, noite alta, e já na cama deitado, debate-se a imaginação do Albino entre o amor ciumento e o medo de atravessar aquela serra árida e solitária, toda povoada de lobos e perigos vários…
Não, não podia deixar que naquela desfolhada, a sua Carminda pudesse, longe de si, ser abraçada por um qualquer rapazola cobiçoso e atrevido, que tivesse a dita de encontrar uma espiga de milho-rei.
A fim de evitar alarmes em família, colocou em seu lugar, na cama, um pequeno molho de canas que, coberto com os lençóis e cobertores, configurava o próprio corpo, garantindo assim a sua presença, fictícia, em casa
Sorrateiramente cobre o capote, sai de casa e põe-se a caminho de Parafita com o coração ardente de paixão pela sua amada.
Tendo só por companhia as cintilantes estrelas – que nessa noite tinham mais brilho – avança resoluto por ermos e áridos caminhos, assaltado muitas vezes pela visão imaginária de perigosos fantasmas.
Também o padrinho que em Magueija mora perto de si, é assaltado por pesadelos medonhos, com a visão sonâmbula de um ataque de lobos ao seu afilhado.
Vai alarmado a casa da comadre perguntar pelo afilhado, e esta sossega-o com a exibição do vulto das canas que, na cama, parecem o seu Albino. Enquanto isto, Albino avança no caminho a passos largos.
O padrinho não conciliava o sono e o sono não conciliava a sua tranquilidade… 
Perante um segundo e um terceiro pesadelo com a visão dos lobos em fúria, o compadre volta a casa da comadre e então descobrem o engodo do molho das canas.
Por esta altura, o Albino irá para lá do cruzeiro do padre Justino, já muito perto das apertadinhas.
Descoberto o engodo e perante a aflição do padrinho, com o toque do sino a rebate, meia Magueija se levanta e corre solícita no encalço daquele.  
Junto ao cruzeiro de Parafita, o Albino é atacado por sete lobos esfomeados… Luta enquanto pode, distribuindo sacholadas, para afugentar os bichos…
A caminho e já nas apertadinhas, as pessoas de Magueija ouvem os gritos e a luta do Albino…
Bem lhe gritam ainda, ânimo! Coragem! Aguenta-te! Larga perro!
Era porém tarde demais, e quando estes amigos chegaram perto do cruzeiro de Parafita, já Albino tinha sido todo comidinho pela alcateia que, só deixara como vestígios os pés, dentro do cano das botas. 
Carminda guardou luto até ao fim da vida, e para ali vinha todos os dias guardar as ovelhas, e, debruçada no penedo junto ao local onde Albino se foi, todos os dias carpia lamentos, que com o tempo, se tornaram numa canção-lamento.
Lá está ainda o penedo, polido, sem musgo, e, garanto-vos, que sempre que ali passo, encosto-lhe o meu ouvido, e é perfeitamente audível aquele dorido e terno lamento. 
Também nas águas do rio que ali correm bem perto, e que em tempos testemunharam a tragédia, se ouve em doce murmúrio a bela canção dos amantes, celebrando nupcialmente o seu reencontro no céu.


Em Sta Iria     
Macário

Avaria na Parabólica




Andava Jesus Cristo cá pela terra, e um dia contou uma parábola mais ou menos do seguinte teor:
Em certa altura um administrador, sabendo que iria ser despedido, chamou os indivíduos que deviam dinheiro ao seu senhor, e acertou com eles o registo de uma imensa redução da dívida, lesando com este «furto» os interesses que devia defender.
Caindo na miséria depois de despedido, este administrador, foi recebido e alimentado em casa daqueles a quem tinha reduzido as dívidas.
E Cristo termina a parábola louvando a acção deste homem por saber conquistar amigos com o dinheiro da iniquidade.
Tendo defendido noutra ocasião que é devido a César o que é de César, parece-me haver contradição entre estes dois princípios.
Sem pretender reduzir o pensamento de Cristo (Deus), à dimensão da minha compreensão (humana), mas supondo que era para mim que falava, confesso simplesmente que não percebo a parábola.
Terei ouvidos de ouvir? Terei sentidos de sentir?
Possivelmente uma qualquer interferência na minha «parabólica» não deixa chegar o sinal, com a nitidez necessária à compreensão da parábola.


    Sta Iria                   
    Macário

Chouriçada Na Feira De Gosende




È talvez dia seis de Janeiro de 1958,dia de reis e dia da feira de Gosende.
Muita gente vem a pé desde muito longe, com o seu gado, a fim de aqui fazer os seus negócios.
Pelos caminhos para a feira, já muita gente iniciou ou concluiu negócios e assim há-de ser ainda na viagem de regresso.
Já na feira, cedo começa também a vozearia e algazarra para realizar um qualquer negócio de reses, que por mais calmo que seja, mete sempre o barulho das avaliações, defeitos, ajudas, rachas e «missas».
Diga-se de passagem que as rachas, são preposições por um terceiro, de divisão a meio, da diferença monetária que separa o vendedor, do comprador. Enquanto que as «missas» são comissões combinadas, através de qualquer sinal codificado entre expertes, e que vão contemplar os ajudas, por ajudar a valorizar ou desvalorizar a rês, atribuindo-lhe ou retirando-lhe defeitos.
Decorria normalmente esta feira de gado por entre mato, giestas, penedias e rigueiros.
Eis se não quando, por volta das onze horas, se levanta ao centro da feira, grande burburinho humano, juntando pessoas em turbilhão.
Ouvem-se gritos de acudam e aqui d El Rei !...Vêem-se paus, varas, bengalas e jambotos pelo ar, arremessados por cima das cabeças daquela mole humana.
Em cima de um penedo ao cimo do cabeço, observo por entre a multidão os Festas, os Morgados, os Farras, os Fidalgos, os Relhados, os Fortunatos e tantos outros de nomes menos sonantes.
Há jambotadas, pauladas, estadulhadas, trochadas, traulitadas, porradas pelo ar.
Corre já sangue e há muitas cabeças partidas; Intervêm a guarda e há tiros…
De todo o perímetro da feira acorrem ao centro, feirantes, não para acudir mas para distribuir indistintamente lombeiradas, bordoadas, trochadas, arrochadas, fueiradas, vergastadas, mocadas. Cresce a algazarra, e há mais e mais sangue…
A guarda pede reforços, que demoram uma eternidade. Entretanto continuo a ver e a
Ouvir a distribuição indistinta de trancadas, ripadas, cacetadas, bastonadas, berlaitadas…
Chega o piquete de reforço da guarda, que avança resoluto para o centro da desordem, e num instante acaba com o «espectáculo».
Está cumprido mais um dia de feira como tantas outras.
Estão vingadas rixas antigas de outras feiras e de outras festas, e no resto do dia e seguintes, vão discutir-se nas tavernas as razões de cada um ou de cada aldeia.
Amanhã é outro dia.

  Em Sta Iria 15 / 12 /2010


Zé Macário 

Comemorações do Centenário da República



Até há muito poucos anos atrás, víamos pela televisão nos dias 5 de Outubro de todos os anos, dois ou três «velhos marretas» republicanos, a depositar ramos de flores junto ao busto da república; nunca tendo eu percebido o que celebravam afinal aqueles «marretas».
Todo o país era condescendente com o divertimento daqueles velhinhos, aparecendo na televisão – já beijando a biqueira do sapatos com a ponta do nariz, e o fraque todo seboso – na prática de tais actos, sem a isso se atribuir qualquer significado, que não o divertimento desses pobres; e a Sra. D. República – sempre bem penteada, embora com o mesmo penteado – recebia-os de nariz franzido, não sei se pelo fétido cheiro exalado dessas múmias animadas, da naftalina dos fraques, se pelo reflexo de tantas medalhas, ou porque as flores – eventualmente roubadas de algum cemitério – se apresentassem excessivamente murchas.
 Pensei que com o desaparecimento daqueles velhos prosélitos republicanos, teria desaparecido a república, ou pelo menos o tal sentimento ou ideal republicano;
Verificando agora que afinal, tal parece não ser verdade, pois está decretado para este ano, o jubileu das celebrações do seu centenário.
Com que júbilo se pode celebrar um regime --que embora centenário – nasceu em crise, viveu sempre em crise e continua em crise?
É porém certo e sabido que muitas famílias oportunistas enriqueceram com o regime republicano, tendo como consequência o empobrecimento da maioria, como sempre acontece. E manda-nos a classe política dominante – a tal que mama sôfrega nas tetas do regime – que celebremos a república… Brindou-nos sempre a república com políticos medíocres, e nós celebramos…Brinda-nos o 25 de Abril com políticos incompetentes e nós celebramos… E eles incham mais e mais!
Perdemos a ideia de pátria, de país, de fronteira, e esquecemo-nos de símbolos como o hino nacional e a bandeira, mas celebramos a república e o 25 de Abril sempre…
Que povo é este, meu Deus? Que povo é este?
Se algum dia foi alguém, se fomos um império, se conquistamos mares e novos mundos ao mundo, foi com a monarquia.
Que haveremos nós de celebrar com o regime republicano ou com o 25 de Abril?
Que fomos mal governados em todo o tempo do regime republicano, é a verdade que todos os governos da república afirmam de todos os outros governos da mesma república; aliás todas as campanhas eleitorais se baseiam em dizer mal dos governos que as antecedem.
Após o 25 de Abril destruíram-se as escolas profissionais, a agricultura, a pesca e boa parte do tecido produtivo, enquanto o país é agora um imenso matagal, pasto perfeito para chamas dos incêndios de verão.
O desemprego grassa e cresce, e a breve trecho pode acontecer uma desagregação social; e a república rejubila, festeja, celebra e comemora!...
Acaso os escândalos de corrupção, de pedofilia, a ineficácia da justiça, nos dão algum motivo de celebração? Ou será tudo isto a tal ética republicana?...
Estamos em crise, mas iremos celebrar em júbilo, e gastar, gastar, gastar!...
Como diria outro medíocre republicano que muito mal governou este país, e a quem depois arranjaram um grande tacho junto dos miseráveis dos refugiados:   é a vida!                 


 LISBOA 21 de SETEMBRO de 2010           


Zé Macário






A Santa de Lamego



Estamos talvez por meados da década de cinquenta, quando em Lamego apareceu uma mulher, dita santa, com altos poderes milagreiros ou curativos e cuja acção mais conhecida, era aparecer a uma varanda um dia por semana, exibindo as mãos, de cujas palmas brotava sangue.
Ganhou fama nacional, e a esta cidade acorreu gente de todo o país na ânsia de milagrosas curas.
Dava consultas ou entrevistas particulares, não chegando no entanto para tanta gente que aqui acorria, e que tinha de contentar-se com o simples espectáculo da exibição das mãos, já de si suficiente para inúmeras curas.
Por aqui se manteve com a sua actividade durante bastante tempo, talvez um ano ou mais,- não sei precisar.
De repente desaparecera sem deixar rasto, tendo voltado a esta cidade por meados da década de setenta, dizia-se que regressada do Brasil.
Aqui desenvolveu novamente a mesma actividade curativa e de exposição, e cá acorreu novamente gente do país inteiro, porém desta vez, só por curtos meses.
Voltou a desaparecer sem deixar rasto.
Foram porém óptimas ocasiões para o comércio desta cidade, principalmente para os taxistas, que em todo o lado faziam a difusão dos milagres da dita senhora.
Voltará um dia?
Se voltar, façam-na ingressar imediatamente no serviço nacional de saúde.

Em Sta Iria  
20  /  12 /  2010        
    Zé Macário 

Histórias de Lamego




Decorriam os exames do quinto ano, julgo que do ano de 1963, no liceu nacional Latino Coelho em Lamego, quando o meu amigo Gil – rapaz de S João da Pesqueira – ao não se sentir bem preparado para o mesmo exame, resolveu, com dois dos seus irmãos – não sei se teria mais – resolveu, dizia eu, preparar e utilizar um engenhoso sistema de comunicações, através do qual pudesse com distinção fazer a respectiva prova.
Na alameda à frente do liceu, os dois irmãos – mais velhos – munidos de um aparelho de rádio de sua construção, cruzavam com o Gil – ligado a estes na sala de exames – perguntas e respostas, sem que ninguém se apercebesse da marosca; tão bem disfarçado estava o dito sistema.
Azar dos azares, e por pura coincidência, o Sr Costa, proprietário de uma papelaria naquela cidade cujos clientes eram principalmente estudantes, sintonizou o seu rádio na mesma frequência da dos outros protagonistas desta história, captando as mensagens e, irritado, foi com o próprio rádio à sala de exames e aí denunciou o meu amigo Gil, que assim viu gorada toda a sua expectativa.
Porém ao Gil veio a ser dada a possibilidade de repetição de exame – que veio a decorrer com êxito – porque este caso, que despertou paixões, e deu brado nacional, gerou uma grande onda de solidariedade com o rapaz, essencialmente pela natureza pioneira da invenção.
O Sr Costa, objecto de repúdio e de chacota pública, fechou a papelaria e emigrou para o Brasil, porque os estudantes deliberaram dar uma carecada a qualquer individuo que lá fosse encontrado a fazer compras.

Zé Macário

Mudança de Vida



    Está-se em crise económica e financeira em Portugal há vários anos, mas mais pronunciadamente desde 2009.
O Sr. Engenheiro António Guterres cedeu tudo perante todas as reivindicações, e o país começou nessa altura em queda abrupta até chegar ao estado deplorável e vergonhoso em que hoje vivemos. Achava esse senhor que, só porque nada era dele, podia dar tudo a toda agente; para além de que sonhava resolver todos os problemas do Estado pela via do diálogo, beijinhos e abraços.
Porque descurou os verdadeiros e grandes problemas do país, quando deu por ela, o Estado estava com temíveis índices de indícios de corrupção, e ele viu finalmente o pântano em que o país mergulhara e foi-se embora.
Bem clamava Cavaco Silva contra o «monstro» despesista do Estado, que engolia descontroladamente quase toda a produção da população portuguesa e aumentava a dívida externa a cada dia que passava; no entanto no país parecia correr o maná
Como primeiro-ministro, sucedeu àquele Sr. António Guterres, um outro engenheiro
do mesmo partido que, parecendo uma personalidade mais forte, estava embuído da mesma doutrinação partidária e continuou a conduzir teimosamente o país numa rota descendente de descalabro. Os alertas de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite caiam sempre em saco roto e assim fomos caindo, caindo até ao abismo
A república, cujo centenário se celebra este ano de 2010, fora sempre perdulária com governantes, deputados e outros altos «servidores» do Estado e por isso este pobre povo nunca passou da cepa torta; no entanto, é vox populi que o grande sorvedouro de dinheiros públicos são as câmaras municipais, tal como se acredita que é nelas que existem os maiores índices de corrupção.
Os serviços prestados pelas Câmaras aos seus munícipes, seria prestado com menos de um décimo do pessoal que estas ocupam, se fosse prestado por empresas privadas.
Então porque não se reforma o Estado?
A filosofia social (pós 25 de Abril) de um Estado paternalista que acuda a todas as necessidades dos cidadãos, desresponsabiliza estes, pela poupança; por outro lado para que o Estado assim acuda a tudo, faz com que os trabalhadores descontem para o mesmo Estado, mais de metade da sua produção e riqueza; perdendo assim a vontade de produzir.
Não pode o Estado dar de comer, fraldas, roupas, livros e tantas outras coisas que devem ser obrigações dos pais.
É absolutamente necessária uma reformulação do Estado e precisar o que deve ser obrigação do Estado e o que deve ser obrigação dos cidadãos, individualmente considerados.
O Estado tem de conter os seus gastos e cortar seriamente nas despesas, principalmente nas redundantes e supérfluas.
Não pode o povo assistir impávido e sem um grande desconforto, à assistência que o Estado assegura a uma corja de madraceiros, a quem atribui habitação e todo o género de subsídios; sendo estes, muitas vezes, actores de uma economia paralela, da qual não pagam qualquer imposto.

Zé Macário

O Mundo Anda De Pernas Para o Ar




 Decorria a década de sessenta do século passado, mantínhamos a fase mais acesa da guerra de África…
Alguns banidos ou auto banidos da sociedade portuguesa, encontravam-se em exílios dourados espalhados pelo mundo, uns tantos mesmo – como Palma Inácio, na LUAR, que perpetrou o assalto do século ao Banco da Figueira da Foz - militando ou mesmo chefiando grupos de associação criminosa.
Por essa altura um senhor Alegre, colocado numa rádio de Argel, lançava daí, sobre a acção de Portugal, seu exército e seus dirigentes, as «toxinas» imaginariamente mais mortais contra a ordem estabelecida deste Povo.
E era essencialmente sobre a nossa generosa juventude a cumprir o serviço militar, defendendo a pátria nos diversos teatros de operações, que se fazia sentir o opróbrio lançado por esses  «portugueses» proscritos.
 Há bem pouco tempo ainda, quando este senhor proferia uma palestra na fundação Gulbenkian, ter-se-á levantado na assistência um velho militar, para lhe lembrar este triste passado.
Muitos desses exilados seriam – acredita-se – filhos rebeldes de papás, mais ou menos ligados ou apaniguados do regime vigente, e eles mesmo beneficiando dessa condição.
Lançavam sobre este Povo as «toxinas» possíveis, e espreitavam – perguntando ao «vento que passa» – a morte do regime, para, sobre a implantação de um novo, se instalarem como abutres.
E os nossos bravos capitães de Abril – com certeza sem o desejarem – fizeram de trampolim a uma boa parte destes indivíduos, cuja maioria até eram refractários do serviço militar, por cobardia e protecção paternal – sejam quais forem as razões invocadas.
   Assim, após Abril de 1974, regressaram e instalaram-se à mesa do O E, de barrigas cheias, para o resto das suas vidas.
Tal como o irmão mais velho do bíblico filho pródigo, também nunca compreendi a apaixonada e solene recepção que os povos habitualmente fazem aos seus trânsfugas, -  tantas vezes por lá perdidos em vidas dissolutas e desonrando ignominiosamente as suas origens – cumulando-os de benesses.
  A criatura aqui em apreço, foi também dos que esteve envolvido na repugnante recepção, efusiva, na assembleia da república, a um dos acusados no escândalo de pedofilia da Casa Pia, evidentemente bem presente na memória de todos os portugueses – tratando-se no entanto, é da praxe dizê-lo - de presumível inocente até trânsito em julgado
Não, também não percebo como é que as polícias ou os tribunais podem incomodar um qualquer cidadão pela presunção de inocência, pois eu pensava, na minha santa ingenuidade, que estes organismos só deveriam incomodar as pessoas, sob a presunção de culpa.
Alegre, é hoje, -  e só por isso o trago aqui à colação  – alegremente candidato e pela segunda vez, à presidência da república que tanto vilipendiou.  As voltas que o mundo dá!...
É meu entendimento que, legitimar quaisquer crimes ou más acções, por serem considerados de natureza política – sendo essa consideração, sempre de índole subjectiva – é validar a legitimidade das mesmas acções em qualquer tempo e em qualquer regime, por poderem ser considerados - também subjectivamente - da mesma natureza. Por exemplo, aviltar a bandeira nacional, ofendendo um povo através do seu símbolo máximo e perene, é sempre, em todas as circunstâncias, uma acção perversa e condenável.

 No entanto, o que poderemos esperar de um tempo em que, por exemplo, muitas ruas da freguesia onde moro, têm por titulo nomes, com subtítulos de anti fascista e presos políticos, em vez de terem simplesmente como subtítulo, agitadores ou cadastrados?!
Verdadeiramente o mundo anda de pernas para o ar!
Quantos capitães de Abril, estarão arrependidos de terem participado na deposição de um regime, para implantação de um outro, que veio a ter como dirigentes substitutos, gente deste jaez, e com os resultados que se conhecem?
Esperamos que desta vez, Alegre, não possa mais acenar com a sua bandeira de «um milhão» e do seu arrogante: a mim, ninguém me cala!
Entendo que não deve espiolhar-se a vida dos cidadãos, porém, quando estes pretendem aceder a representantes máximos de um povo, devia ser conhecida integralmente a sua biografia, e nunca deixar que o passado caísse na via do esquecimento.


Em Sta Iria De Azóia  5 / 12 / 2010


Zé Macário

Pressa de Esquecer




Haverá talvez cento e vinte anos – data que peço seja confirmada em registos da paróquia ou junto da capela da Matancinha – fora pároco de Penude, um tal padre Justino – para muitos, de saudosa memória – ao que julgo, filho da mesma freguesia, do lugar do Serradinho.
Terá sido este senhor que mobilizou as forças locais do tempo, para a construção da capela da Matancinha – dita de Sta Cruz e construída em forma de cruz, pela devoção deste padre à cruz de Cristo,
A pedra com que se construiu esta capela, terá sido cortada, segundo os métodos desse tempo, nas Apertadinhas, perto de Parafita; e fora transportada pelos caminhos da época em carros de bois que, no seu percurso, passaram pela ponte de Reconcos e Magueija, a caminho da Matancinha.
Segundo alguns relatos que ainda ouvi, estes trabalhos (todos voluntários) terão decorrido sempre em ambiente de grande festa, como os cortejos de oferendas que anualmente se faziam para a sede da freguesia.
No local do corte da pedra, mandou o padre Justino edificar com a mesma pedra, um cruzeiro comemorativo, que ainda hoje lá está.
A construção da IP3 passou-lhe ao lado, de raspão, deixando-o intacto com as suas inscrições já ilegíveis, mas atestando no tempo o valor das lideranças e da unificação dos homens em acções de boa vontade.
A edificação deste cruzeiro, tal como da capela, foi uma obra para marcar a posteridade…
Porém, quantos penudenses conhecem a existência deste monumento?
O senhor presidente da junta de freguesia de Penude, já lhe mandou limpar as inscrições?
E o pároco de Penude sabe da existência deste legado?
Porque assim teria sido votado ao esquecimento? Somos realmente de um tempo com pressa de esquecer.
É inadmissível o desconhecimento, pois o caminho até lá, está todo alcatroado.
Sugiro aos lideres penudenses, a organização de uma romaria a pé até lá, para memória futura, e para percebermos o quanto teria custado aos nossos avós o transporte daquela pedra, que, ao que me consta, partira pelo caminho, muitos eixos de carros até chegar ao destino.
 Seremos minimamente dignos de herança que as gentes desses tempos nos legaram?
Respeitemos pelo menos a sua memória!...


Zé Macário
02/01/2011

Rota da História





Teria com certeza  mais de treze anos quando vi pela primeira vez um preto em pessoa; tendo visto até essa altura, deles, somente várias representações figurativas.
Até essa idade ouvia muitas vezes falar de pretos, principalmente a indivíduos regressados de missões católicas em África, que os descreviam não como pessoas, mas antes, como hoje se descrevem ou representam os marcianos; admitindo-se quando muito, que fossem criaturas de algum animismo sincrético. .
Diga-se de passagem, que sendo os missionários, nessa altura, dos poucos conhecedores da realidade africana, se compraziam de a relatar cá para os papalvos, apimentadamente recheada de vivências e peripécias sobre pessoas, deslocações, caçadas, safaris etc, absolutamente anedóticas.
Entendiam-se os costumes dos nativos africanos não como produto de culturas ancestrais, mas antes como instintivos hábitos selvagens muito próximos dos macacos, que era necessário submeter, ensinar, educar?...Ensinar, numa clara lógica de supremacia cultural e humanística da raça branca.
Num preto, todos os actos, gestos, costumes, rituais, etc, eram risíveis. Riamo-nos  dos relatos da sua indumentária, adornos, tatuagens, brincos, argolas, guizos etc, colocados nos mais diversos sítios do corpo, por vezes e para tal, objecto de diversos furos e mutilações. Risíveis eram as suas formas de comer em grupo de um mesmo recipiente, e directamente com as mãos, sem qualquer garfo ou colher.
Risíveis, também entre nós brancos, eram as homenagens festivas, expressas nas mais diversas danças, gestos e rituais, que os pretos prestam aos seus «maiores»( Homens grandes ), chefes de aldeia, de concelho, de distrito, régulos, feiticeiros etc, a quem –supomos – veneram como ídolos. Como exemplo – remoto – desta forma colectiva de entender os pretos, lembro o vergonhoso facto histórico do aprisionamento e humilhação do Gungunhana, exibido pelas ruas de Lisboa como animal exótico.
No entanto, risível, risível, parece-me hoje a forma como os brancos assimilaram todos esses «bárbaros» costumes dos pretos.
Risível, parece-me hoje saber que há brancos com brincos, chocalhos, argolas ou arganeis (pircings), colocados em todo o mapa corporal, inclusive órgãos sexuais e até nas bordas do cu?!...
Risível, é que esta onda atravesse todos os estratos sociais, incluindo as «elites».
Curiosa e excepcionalmente, nunca vi nenhum militar, padre ou bancário, com algum destes penduricalhos presos às orelhas ou ao nariz, nem tão pouco, usando aquele exótico corte de cabelo tipo crista de galo.
Risíveis, parecem-me ainda as recepções a qualquer políticozeco, acompanhadas de fanfarra, banda, e tantas vezes com utilização das próprias criancinhas em encenações folclóricas, lançando a escada do «Olimpo», a balofos ídolos de pés de barro.
Entristece-me saber adulterada a língua pátria, com substituição do muito pelo bué, e apraz-me saber que os brancos ainda não comem a sopa com as mãos e directamente da panela, sem garfo nem colher.
Não é intenção deste artigo, criticar no nosso povo a importação de tão exóticos costumes e artefactos, tanto mais que alguns até nos enriqueceram, principalmente no domínio da música e da dança, mas tão somente evidenciar através destes exemplos, como anda a roda da história, praticando nós hoje os actos, que eram ontem objecto da nossa chacota.
Mudam-se os tempos, mudam-se os homens, mudam-se as vontades. Aquilo que ontem era, hoje já não é, e um dia voltará a ser.
É a roda do mundo, que nunca sai do mesmo sítio.
.
  Em Sta Iria  18 / 12 / 2010

Se Bem Me Lembro



                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
Se bem me lembro… Plagiando Vitorino Nemésio, o tal de «Mau Tempo No Canal», ou melhor, não plagiando, porque o termo se bem me lembro, era já corriqueiro entre as gentes Lamecenses:
-Se bem me lembro – dizia eu – O Ti Varanda era um dos velhinhos que povoam as brumas memoriais da minha infância.
Tinha uma acentuada corcunda, andava com as mãos «atadas» atrás das costas como os polícias, usava, como o Ti Branquinho, sapatos de «barro» em vez de tamancos, tinha um andamento esquisito, saltitante como se pedalasse uma bicicleta, e passava a sua vida guardando a água no rego do lameiro, a caminho do Paúlo.
Tinha uma filha solteirona, baixa, gorducha e corada, não muito bafejada pela beleza, pelo menos com aquela beleza que no meu conceito subjectivo de criança, de quatro ou cinco anos, achava ficar bem assente no género feminino. 
Esta filha, a Rosa Varanda, era uma simpatia de pessoa e nunca passava por mim sem me fazer algumas gracinhas, e de tal forma eu gostava dela, que os adultos já me diziam com ar de gozo, que ela era a minha namorada.
Pois um dia, meus amigos, enguenchei com a Rosa Varanda, e, logo depois daquela lengalenga, enguenchar, enguenchar, para dia de Páscoa me dares o folar e tal tal, tal tal, ela, aquela Rosa, deixou-se ficar com a minha reza. Como era bondosa aquela Rosa!
Passei semanas e semanas – que me pareceram anos – a esconder-me entre os carvalhos, os pinheiros, as paredes, para a surpreender com a minha reza, tendo porém sido muitas vezes surpreendido com a sua, porque também ela se disfarçava e escondia para me surpreender e mandar rezar. 
Porém, ao tê-la mandado rezar aí pela Quinta Feira Santa, não mais voltei para as bandas do Paúlo até ao Sábado-Aleluia – assim se chamado naqueles tempos, por ser às nove horas de Sábado Santo que, os santos despiam o seu luto.
Pois a Rosa Varanda ficou com a minha reza, e portanto ganhei-lhe o folar. A Rosa terá adoecido e morreu sem me pagar – possivelmente uma quarta de confeitos ou mesmo só dois confeitos para jogar o rapa… Que pena eu tive que a Rosa não me tivesse pago, e durante muito tempo esperei que ela me aparecesse – bondosa como era seu timbre – a entregar-me, com um beijo, a prenda que me devia.
Que pena eu tive que a Rosa me deixasse, quase órfão, no Paúlo ou no rego da Lameiro.
Fiquei mais pobre e só, com a falta daquela Rosa.
Que Deus a tenha por lá a distribuir os confeitos que não pôde dar-me!...



Zé Macário
02/01/2011

In Illo Tempore II



In illo tempore, corria o ano de 1963, morando eu na Matancinha, fui insistentemente abordado por um cunhado, membro da LAC, para participar num retiro de uma semana na sede da paróquia.
Penso que fazia parte das funções dos membros da LAC, trazer para o aprisco do Senhor, algumas «ovelhas» arredias.
Ao tempo, era pároco de Penude um tal padre Borges, por quem eu não nutria qualquer simpatia, sentimento aliás recíproco, pois tinham acontecido mesmo, entre nós, alguns episódios antipáticos.
Depois de muito instado, lá me comprometi a frequentar o dito retiro, mediante a prévia condição privilegiada, exigida por mim, de dormir sozinho numa enxerga.
Decorria já o primeiro dia do retiro, quando alguém conseguiu aliciar o Zé Reluz para a frequência do mesmo; pelo que fui abordado para dividir com ele a enxerga que me estava destinada. Dispunha-me eu já a ceder-lha alegremente, mas recusando-me a dormir acompanhado, encontrava o pretexto de, por sobrelotação, retirar-me para minha casa. Lá se arranjou outro cómodo para o Zé Reluz, e o retiro continuou com a presença de ambos.
Esse retiro constava de compor um certo ar compungido – como aquele que se ensaia para os velórios -, assistir a umas tantas palestras de uns tantos padres convidados, e o restante tempo era ocupado com orações e leituras de textos a condizer.
Fui nomeado leitor «oficial» e, parece-me que, a avaliar pelas caras e comentários dos ouvintes, desempenhei muitíssimo bem a função.
Era o mais novo dos circunstantes, sendo mesmo muito mais novo do que os filhos de alguns deles.
Recordo ainda as caras contritas e introspectivas de alguns, entre os quais o Priscas do Bairral que, acreditei, iriam corrigir radicalmente os rumos das suas vidas.
Eu porém, sentia-me ali, como simples observador da teatralidade das fisionomias.
Dos participantes naquele retiro, só eu estou ainda vivo; todos os outros já terão prestado contas ao Criador.
Continuam ainda bem vivos os filhos bastardos de alguns deles, que nunca largaram a condição de filhos de pais incógnitos; nunca receberam dos pais qualquer ajuda na criação e educação, nem um chavo de herança, e menos ainda o reconhecimento oficial de paternidade.     


                          Santa Iria 20/11/2010

                                     Zé Macário

IN ILLO TEMPORE


In illo tempore, quando eu era ainda uma inocente criancinha, e semeava migalhas de pão, esperando que nascessem broas inteiras e grandes; quando os barbeiros e os ferradores, fazendo de médicos, prestavam serviço porta a porta e eram avençados pelos seus trabalhos, também os bois, cavalos, e porcos de cobrição, eram avençados pela sua actividade de padreamento. Era uma sociedade essencialmente rural, e a avença consistia, no pagamento de umas tantas medidas de produtos agrícolas, a esses e a outros prestativos.
O país era profundamente religioso, havia muitos padres e, os seminários, sempre cheios, eram verdadeiros alfobres de sacerdotes.
Os candidatos ao sacerdócio eram sujeitos a duas tonsuras, – primeiro, uma em semicírculo e depois uma segunda e definitiva, completando o circulo, do tamanho de uma moeda de vintém, no alto do toutiço – como sinal de renúncia à vaidade. Parecia-me isto tão ridículo, quanto esses cortes de cabelo em forma de crista de galo, que por aí se exibem nos dias que correm.
Havia muitos pregadores, e os sermões eram, quase invariavelmente, aterradoras ameaças do fogo do inferno às almas pecadoras, ao qual, porém, poderiam escapar com a aquisição de indulgências. Não sei o que estas eram, por quem eram concedidas, nem o que ou quanto se pagava por cada uma.
Sei, é que os templos andavam por essa altura, cheios de pessoas de cabeça à banda e ar humilde e compungido, com aspecto de arrependidos de pecados que desconheceriam. Enfim, era a sociedade do medo.
Havia nesse tempo duas qualidades de pecados – mortais e veniais – estes segundos, mais leves que os primeiros, e que eu julgava serem de os maridos espancarem as mulheres e os filhos, acto a que aliás se chamava dar a criação (educação), e era considerado dever de qualquer homem que se prezasse.
Casar as filhas, podia ser sinónimo de torná-las escravas ou mandá-las para o matadoiro.
Era neste ambiente, e para fugir à fome e à dureza do trabalho – também infantil – que eram recrutados os garotos que enxameavam os seminários; e foi neste ambiente que também eu fui internado num seminário, bem longe da família – que aliás só visitava por altura das férias grandes.
Embora fosse um puto reguila, e já fosse às pútegas desde os três anos de idade, e as conhecesse bem pelas suas roupagens e barrigas, foi nesta primeira viagem para o seminário, que eu percebi que o mundo era afinal muito maior, do que aquele que estava limitado pelos montes da Póvoa, de Penude, de S. Domingos e do Marão.
O pecado que eu mais despejava no tegão das confissões, era o generalista de maus pensamentos – pecado que aliás voltava a cometer, antes ainda de acabar de rezar a penitência. Porém era realmente uma alma atormentada pela ideia de pecado, de tal forma que, pensava, só a autoridade do papa poder absolver-me de tão graves pecados. E foi esta alma assim atormentada, que o meu pai resolveu mandar para o seminário, preparar-se – segundo palavras suas – para ser padre e ir pelo mundo fora salvar almas das garras do Mafarrico e do fogo do inferno. Não aguentei a reclusão, e saí ao fim do segundo ano, possivelmente com medo também que se cumprissem em mim as profecias do Ti Beijamim Ramalho e de muitas outras pessoas que afirmavam, que eu sofreria a tonsura e teria também de ser capado.
In illo tempore, os adultos nunca se lavavam, e a garotada masculina, só o fazia no rio Balsemão – fugindo aos pais – na alta tineira do verão.
Imaginem agora vocês, gente nova, o cheiro a bedum, misturado com fumo e álcool, exalado por aqueles corpos machos.
Nos domingos mais soalheiros, era normal ver as famílias nas suas varandas, catando – com auxílio de um pente especial – os piolhos e lêndeas, que esmagavam entre as unhas dos dois polegares, num rito maquinal ancestralmente herdado, como verificamos nas comunidades de macacos.
Sim, é esta uma pequena amostra da sociedade em que vivi na minha infância e parte da juventude.

Em Sta Iria   16 /11 /2010


Zé Macário