Interessa-me sempre examinar ou comentar as questões, vendo-as de um lado diferente do da generalidade das pessoas; e faço isto para evitar a ditadura do «politicamente correcto».
A cinematografia ficcionista contemporânea é fértil em mostrar – muitas vezes com recurso a efeitos especiais – os terríveis monstros criados inadvertidamente pelo homem, tantas vezes com o simples pronunciamento, errado, das palavras «abracadabra, abre-te césamo», ou com o gesto de esfregar a «lâmpada de Aladino».
Vem isto a propósito de reflectir sobre o facto de hoje em dia, por todos nos guiarmos por ideias feitas, estarmos possivelmente a pronunciar erradamente as tais palavras mágicas, criadoras de monstros, capazes de devorar a sociedade.
Em termos de ideias, não temos de nos guiar ou reproduzir as ideias dominantes, mas antes, examiná-las de todos os «ângulos» possíveis. Sim, as ideias também devem entrar em laboratório, e serem abertas e dissecadas.
As organizações que distribuem roupa aos pobres, apelam hoje a que só lhes seja oferecida roupa impecável, ou mesmo o último grito da moda, para assim contemplar – dizem – a «dignidade» dos necessitados.
Começo por não concordar que a dignidade das pessoas esteja na sua indumentária.
Como não percebo que, gente que habitualmente veste roupa eventualmente com pequenos consertos tenha de comprar roupa nova para oferecer aos outros.
Acontece até que muita gente deita para o lixo roupa usável, por vergonha de a entregar nessas casas distribuidoras, na dúvida de ser bem aceite.
Parece-me até que é inusual alguém doar, por exemplo, batas domésticas ou fatos-macacos.
Ora meus amigos, não estaremos – por excesso de zelo – a matar a galinha dos ovos de ouro da solidariedade?
Conheço uma instituição de solidariedade, acolhedora de desfavorecidos da sorte, – em que até já tenho almoçado – onde todos os dias se consomem, e com toda a dignidade, sobras de restaurantes.
Algumas das utentes desta casa, fazem pequenos consertos na roupa que lhes é oferecida, de forma até a adaptá-la ao seu gosto ou à sua medida. E garanto-vos meus amigos, que ali, toda a gente vive com dignidade.
Eu sinto-me muito honrado quando sou convidado a almoçar lá, e espiritualmente engrandecido, quando de qualquer outra forma comungo da vida daquela comunidade exemplar.
De uma reportagem televisiva sobre desemprego e pobreza em Mesão Frio , ficou a ideia de que não há realmente desemprego na região, mas sim recusa de emprego, porque as pessoas só aceitam como ocupação, a frequência de remunerados cursos de formação, e assim, passam a vida saltando de uns para outros...
De uma outra reportagem sobre aumentos de exportação na indústria do calçado, retive a ideia de que o sector, para responder a este aumento, necessita da mão-de-obra de várias centenas de trabalhadores, mas não encontra gente interessada ou qualificada…
Deixo a pergunta: - Quanto se gasta e o que é que se aprende na tão propalada formação profissional?
Sim, e nas novas oportunidades? Qual a sua real utilidade?
E porque gastar tanto em segundas oportunidades, quando tem que se reduzir os gastos em primeiras oportunidades, no ensino normal?
Ainda de uma outra reportagem, em que, moradores de habitações sociais se queixavam de lhes terem aumentado as rendas de 5 para 200 euros, dizia o presidente da câmara de Faro, que esses aumentos eram absolutamente compatíveis com os rendimentos dos respectivos agregados – verificado através de declarações de IRS.
Então reclamavam de quê? Do muito tempo em que, sem necessidade justificativa, as habitaram à custa dos contribuintes?
Enfim, sem comentários!
Por estas e por muitas outras questões a que voltarei brevemente, me parece que estamos perante um estado que promove a miséria, para ter campo onde exercer a «caridade».
Lembrem-se aliás, que a solidariedade já um dia foi nacionalizada, e já tivemos até um ministério da solidariedade, representado aliás por um indígena, referido – se bem me lembro – em processos da Casa Pia. Recordam-se?
Se o estado não pode nem deve fazer a cobertura de todas as necessidades, então que se dedique só às essenciais, pois ao tentar cobrir tudo, pode ter de entrar em incumprimento das suas funções primárias (saúde, educação, justiça, segurança).
Os recursos não são elásticos, e estão mesmo prestes a rebentar. Haja senso!
Bem sabemos que o corte de privilégios – que nunca deveriam ter existido – pode afectar alguma coesão social, porém, faça-se o que tem de ser feito.
É evidente que os portugueses reconhecem a necessidade desse corte de privilégios, querendo porém que sejam cortadas as regalias dos outros, deixando intactas as nossas. Todavia é ao governo que está atribuída a missão de governar. Então governe!
Estas, são só algumas das muitas, muitas questões, em que eu pergunto se não temos estado a pronunciar as tais palavras mágicas, criadoras de monstros devoradores da sociedade.
Zé Macário
16/09/2011
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