sábado, 9 de abril de 2011

Precoce

Temos a mesma idade, fazemos anos no mesmo dia, fomos companheiros de infância e, mais tarde, camaradas de armas.
Precocemente começou a sair da «casca», precocemente entrou na juventude, e precocemente atingiu a maioridade – com autorização dos pais, evidentemente.
Muito novo começou a andar às garotas, com os rapazes mais velhos, e mais do que eles era sortudo.
Tinha a figura, a idade, o carisma e o paleio exacto, a que elas não resistem.
Era um autêntico traquina, que quebrava a monotonia, mas também o sossego lá do sítio. Porém, toda a gente gostava da sua companhia.
Gozou a vida com a intensidade possível.
Atingiu – mais uma vez precocemente – a velhice, a que não terá sido alheia a sua participação na guerra. È aliás um dos poucos resistentes, dos que com ele serviram na Guiné.
A sua paixão pela beleza das moças contínua intacta, e estas gostam imenso de o provocar, agora para ouvirem os piropos do «avozinho». É aliás assim que ele se sente, e que muitas delas lhe chamam.
Fui encontrá-lo agora naquele centro comercial – como sempre, desleixado da sua imagem, de braguilha aberta, e fralda de fora – a meter-se com a miúda da papelaria.
Fomos tomar um café ali ao lado, e aí passámos horas, desfiando recordações.
Perícia de relojoeiro e verdadeira alma de artista, a arrecadação das suas recordações é um verdadeiro museu, onde guarda as partes anatómicas femininas mais importantes.
Durante o tempo que ali passámos, interrompia a conversa de cada vez que pela nossa frente passava uma garota, e imediatamente realizava uma obra de arte, substituindo-lhes os seios, as pernas, a bunda e eventualmente até o nariz ou as orelhas, por algumas das peças do seu museu.
Uma ficaria bem com as pernas da Gabriela, uma outra com os seios da Miquilina, outra ainda com a cintura da Zefa, etc…
Numa rápida operação cirúrgica, ali tornava real a figura da sua Dulcineia.
Já sem a companheira, é muitas vezes presenteado com visitas dos netos, que têm por ele um orgulho e carinho muito especiais.
Depois do passeio matinal, tem como entretenimento a cultura de flores, com quem mantêm «diálogos» constantes, no seu pequeno jardim.
Sempre viveu pobre mas feliz o nosso Zé, no seu pequeno mundo, de onde contempla, louva, e frui, encantado, as maravilhas com que o Criador o presenteia.
Quase a terminar a nossa conversa, confidenciou-me ainda:
- Sou amante da liberdade como um dos valores supremos, e embora goste de fazer de palhaço voluntário para provocar o sorriso das pessoas, só uma coisa poderia estorvar-me de ser feliz…
Era estar num lar de idosos, como macaco amestrado, a ensaiar sorrisos e palhaçadas para recepções a esses vampiros desses políticos ou a essa canalha do jet set.    

Zé Macário
01/04/11

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