A população portuguesa está dizimada.
Não, já não somos as dez milhões de almas que rezavam as estatísticas.
Actualmente, o que não existe em televisão, não existe «realmente».
Estamos portanto reduzidos a umas centenas de indígenas, a contar por aquilo que aparece no ecrã mágico.
O que nós vemos em televisão, são sempre as mesmas figuras a opinar e a cagar retóricas sobre tudo.
Uma grande parte das vezes são «doutores» – especialistas disto, daquilo, e de tudo o mais – a dizer coisas muito «importantes», que, ditas por pessoas «normais», seriam classificadas de baboseiras ou simples banalidades.
E não se dão conta do ridículo sequer. Nem eles, nem quem os apresenta.
Os programas televisivos são só isto, ou então de entretenimento, em que se explora o «fado» e as lágrimas das «desgraçadinhas», vítimas de violência doméstica ou de outra coisa qualquer. E quanto mais a «desgraçadinha» chorar suas desventuras, maiores são as audiências – quase como no circo romano.
Por isso, apela-se sempre a mais uma lagrimazinha!...
Vá lá, lacrimeje por favor! E se se consegue mais uma lágrima, até tem direito a uma salva de palmas.
Tenho mesmo muitas dúvidas, se estas «emoções» não são simples encenações «teatrais», ensaiadas e pagas pelas próprias televisões.
Para além destas, as presenças estão limitadas quase sempre às mesmas figuras – não sei se de falhados ou não – de advogados, médicos, psicólogos, filósofos, economistas, políticos, «artistas» etc, que aqui exibem suas habilidades como bichinhos amestrados, ou como animaizinhos exóticos do jardim zoológico.
Sim, as televisões exibem-nos como palhaços de circo e exploram as nossas ovações por eles em vida, e exploram o nosso pesar por eles até à exaustão, meses ou anos para além das suas mortes.
Ninguém lamenta, nem conhece aliás, as pessoas – muitas delas, trabalhadoras e criadoras de riqueza para o país – que morrem todos os dias nas estradas de Portugal, ou em acidentes laborais.
Mas choram-se meses a fio as mortes de quaisquer desprezíveis nulidades sociais, que embora «angélicas» e inofensivas criaturas, têm uma vida social «realmente» fútil, ou mesmo inútil.
Não, não somos dez milhões de indivíduos nas suas diversidades pessoais, laborais, culturais …
Somos simplesmente aquela «realidade» que entra em nossa casa, pela televisão. O resto feneceu, apagou-se, escafedeu-se, não existe…
Os apresentadores das diversas televisões, convidam-se e elogiam-se mutuamente nos seus diversos programas, com vista à sua recíproca promoção social.
E o «Zé» – que afinal já não existe – ovaciona estes «profissionais» contadores de histórias, ou simples cagadores de retóricas.
E não o esqueçamos: - é em grande parte fruto da televisão, a educação das camadas jovens do país!
Não será fruto desta «educação» televisiva, por exemplo, o assassinato de Carlos Castro? Ou ainda a cadeia a que são condenados vários daqueles jovens, a quem um dia exploraram, acenando com a «fama»? Ou ainda a decepção de tantos jovens, que também assim cobiçaram construir as suas vidas sobre a fama do efémero televisivo?
Vivemos em tempos malévolos de uma terrível perversão dos jornalistas e de outros profissionais de televisão, que exercem o «direito» de reedificar universalmente o mundo à medida das suas pobres cabeças. E os resultados vão estando bem à vista!
Abre os olhos «Zé», que já é dia!
È poder a mais (e abuso de poder), para gente tão pobre dos miolos!
Zé Macário
29/07/2011
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