Nasci em meados do século XX numa pequena aldeia serrana, rural e pastoril, do distrito de Viseu – numa sociedade fechada ao exterior, sem estrada, sem telefone, e onde a pouca informação chegava tarde e distorcida.
Os poucos ensinamentos que recebíamos eram os de uma comunidade de analfabetos, da professora primária (D. Natividade), e do pároco (Padre João Mendes) – este, visitava a aldeia uma hora, de 15 em 15 dias.
Esta comunidade era dotada de uma catolicidade intensa e irracional, que ia fazendo reflectir nos seus descendentes.
Assim, era-nos ensinada a existência de um Deus espiritual, pai, criador, mais velho que o mundo, omnipotente, omnisciente, omnipresente, e inexoravelmente justiceiro e vingativo.
Como intérpretes do seu pensamento e do seu querer, teria deixado junto de nós os seus ministros (padres) que nos informavam dos procedimentos que Ele nos exigia, e que tinham ainda o poder de nos indultarem o incumprimento de tais regras.
Para prémio pela prática do bem, criara o céu (lugar, onde depois desta vida se gozava eternamente).
Para castigo pela prática do mal, criara o inferno (lugar onde se sofria, ardendo eternamente).
Criara ainda um lugar intermédio (o purgatório) onde se expiavam – ardendo, durante algum tempo – alguns pequenos delitos.
O homem nascia já carregado com o peso do pecado original, sem que para isso tivesse praticado voluntariamente qualquer maldade.
E depois, ao longo da vida, quase todas as acções eram condenáveis, à luz do que os padres – «verdadeiros» intérpretes da vontade de Deus, do bem, e do mal - diziam ser a ordem do Criador.
Eram pecados não só tudo aquilo que é realmente mal, mas até os «maus pensamentos», tais como, pensar numa garota ou fantasiar com ela em pensamento, um simples beijo...
Dançar, por exemplo, era candidatar-se ao inferno.
Não obstante deus saber tudo sobre nós, para obtenção do perdão exigia também que, muito pesarosos e arrependidos, confessássemos aos seus ministros todas as «maldades» praticadas, ainda que fossem simples pensamentos involuntários e inconsequentes.
Para a confissão, era necessário ensaiar um ar muito compungido (aquele ar de quem, num velório, dá os pêsames à família do morto).
As pessoas chegavam a sentir arrependimento de não se sentir arrependidas. Como aliás ficavam muito intranquilas pela hipótese de ter deixado – por esquecimento – algum pecado por confessar.
Acredito porém que as ideias de prémio e de castigo contidas neste «código», terão regulado muitas relações humanas,
Assim, poder-se-ão ter evitado muitos roubos, muitos assassinatos, muitos assaltos, muita corrupção, muitos abusos sexuais, etc. etc. etc. E à procura de prémio, até se terá praticado muita solidariedade.
Com a revolução democrática, também o S. Pedro mandou todos os padres «mijar» para o inferno, e extingui-lo por alagamento.
Deus passou a resolver tudo pelo diálogo (assim, mais ou menos como o Guterres), e tudo passou a viver no reino das maravilhas.
Não, não acabaram os assassinatos, nem a violência doméstica, nem os assaltos à mão armada, nem a corrupção, nem as violações, mas parece terem deixado de ser crimes graves e puníveis com o inferno.
Hoje – tal como antigamente – tudo para mim é confuso…
De tal maneira confuso, que até me interrogo se as oliveiras que estão perto dos saramagos, são para os aromatizar, ou para amenizar a calor vindo de outro lado?
Zé Macário
25/07/11
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