quarta-feira, 6 de julho de 2011

Lembranças VI

Tanto, quanto a minha lembrança ainda me permite recordar, a história que vou contar passou-se num qualquer dia de um mês de 1967, quando cumpria a minha comissão de serviço militar na Guiné.
Estando o batalhão sedeado em Mansoa, duas companhias foram incumbidas de uma operação de «limpeza» na mata do Morés.
Deslocámo-nos ao anoitecer, estacionámos a meio da noite e aí pernoitámos, envolvidos pelo capim, numa clareira da orla da mata que íamos acometer.
Na retaguarda ficara a artilharia, com seus obuses preparados para cobrir a nossa progressão na arremetida final para o objectivo – desconhecido aliás na sua amplitude e natureza, mas, mais ou menos localizado. Sabia-se que em determinado sítio, havia intensa actividade do IN, não se sabendo porém a natureza das suas posições e instalações.
A uns 500 metros do perímetro onde pernoitámos, corria um riacho de considerável caudal e forte corrente, que sendo obstáculo ao nosso percurso, era forçoso atravessar a vau.
Ao alvorecer deparámo-nos com a visão de quatro ou cinco indígenas, que fingiam pescar distraidamente junto ao rio…O IN teria dado pela nossa presença, e mandado alguns avançados para atrair a nossa travessia exactamente para aquele sítio, e nós caímos no engodo. Quando nos preparávamos para a travessia, os falsos pescadores desapareceram.
Começámos a atravessar, e quando uma das companhias já estava quase toda na outra margem – estando por isso o nosso pessoal dividido entre as duas margens, e com muitos homens mesmo, em plena travessia do rio – fomos severamente fustigados por um infernal arsenal de fogo de toda a sorte, com destaque para as morteiradas e bazucadas, vindas algures da outra orla da mata à nossa frente.
 O IN, que estava invisível e protegido pela mata, massacrou as nossas forças, que se encontravam bem visíveis, a corpo descoberto, desprotegidas em plena clareira.
Sim, massacrou-nos durante bastante mais de uma hora.
A nossa artilharia começou a disparar, para demasiado longe porém, deixando o IN entre nós e a área de queda das granadas dos nossos obuses, que caíam a mais de trezentos metros para lá  da área da emboscada inimiga.
 Via rádio, fomos pedindo sucessivamente à nossa artilharia a redução da distância de tiro, e de tal modo foi sendo reduzida, que a determinada altura já éramos atingidos pelas nossas próprias granadas.
Tivemos alguns mortos e muitos feridos, mas conseguimos tomar o objectivo, que era afinal um hospital, já muito bem equipado. Todavia, já tinha sido abandonado pelo IN, ao ter-se apercebido da nossa presença por perto.
O que descrevo é resumida e sinteticamente um episódio, pois, o drama – sendo indescritível – fica entregue à imaginação dos leitores, ou simplesmente vai connosco para a tumba.
É na guerra, e em situações de maior tensão, que melhor se conhecem as qualidades e os defeitos humanos, tais como: - a competência, a capacidade de liderança, o sentido de responsabilidade, a coragem, o arrojo, o ânimo, a camaradagem, o medo, a cobardia, a traição…
No entanto, se algum ensinamento se pode trazer da guerra, é para ensinar aos nossos filhos e netos, a serem sempre construtores da paz.

03/07/11
Zé Macário

2 comentários:

  1. Porque estes anjos da guarda e todos os que por lá passaram merecem o reconhecimento de todos, aqui te deixo o endereço de um blogue de alguém que pretende não deixar cair no esquecimento todos os que sofreram com o afastamento das suas famílias, com um clima avesso e as constantes incertezas no amanhã motivados pela guerra.

    http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2010/06/guine-6374-p6522-as-nossas-queridas.html

    ResponderEliminar
  2. O comentário anterior foi por lapso colocado neste texto, mas é referente ao texto "ANJOS DO AR"

    ResponderEliminar