sexta-feira, 6 de maio de 2011

Civilização da Vergonha



Nós portugueses, somos muito previsíveis.
Quem conhece este povo, pode perfeitamente prever as suas acções ou comportamentos futuros, em função dos comportamentos em semelhantes situações do passado.
Quando veio a conhecimento público o fenómeno de pedofilia da Casa Pia, causou sentimento de grande alarme e repulsa popular.
Percebeu-se ao fim de pouco tempo que, com o decorrer dos anos, estes crimes e a consequente repulsa iriam ser banalizados, se não mesmo banidos.
Percebeu-se também que grande parte dos personagens citados como protagonistas destes fenómenos, e de grandes escândalos de corrupção, eram ou tinham sido representantes do povo no parlamento ou no governo.
Então onde se acoitam grande parte dessas criaturas? Acoitam-se nos partidos políticos. Nos partidos políticos, que deveriam ser escolas de cidadania!...
Nas próximas eleições, poderão certos partidos, incluir nas suas listas de candidatos a deputados, alguns destes personagens. E eu não ficaria nada surpreendido se esses partidos viessem a ter a maioria dos votos expressos.
Se a inclusão destes nomes em listas para deputados é uma provocação ao povo, a aceitação deste acto por parte do povo, é uma vergonha civilizacional.
Num passado não muito distante, pela prática ou simples suspeita de actos de muito menor gravidade, as pessoas suicidavam-se por não suportarem a desonra, a repulsa e o escárnio popular, muitas vezes até, só por impossibilidade de satisfazer os seus compromissos. Enquanto hoje podem exibir-se ou enaltecer-se «enfunados» na televisão, como futuros deputados ou membros de governo – depois de os seus nomes terem sido arrastados vergonhosamente nas páginas dos jornais.
Por este andar e esta banalização criminal, não estará longe o tempo em que Portugal seja simples objecto de turismo pedófilo ou sexual, além da corrupção, claro.
Acredito mesmo que esta promiscuidade – com a eventual futura constituição de empresas do ramo, cotadas em bolsa – venha a constituir a maior fatia da receita da nossa economia.
Escândalos como o da Casa Pia, fax de Macau, face oculta, Alcochete e tantos outros, não podem originar deputados, ministros ou dirigentes, sem uma evidente, veemente e expressiva repulsa popular!...
Repito: - Esta vergonha cultural e civilizacional há de acontecer ou já está mesmo acontecendo, por aceitação do povo, ou seja, por falta de condenação popular destes actos que, durante pouco mais tempo ainda se manterão no rol dos crimes.
É minha profunda convicção que a própria crise económica e financeira que atravessamos, tem a sua origem na grande crise de valores que afecta a sociedade.
Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.
Se na cena nacional aceitamos a eleição e reeleição dos «Curtos», das «Fátimas», dos «Isaltinos»…
Na cena internacional escolhemos como amigos os «Chaves», os «Kadafis»…
Muito mal andaram as religiões ao mandarem os seus bombeiros extinguir o fogo do inferno, pois resolver-se-iam  pelo medo, muitas coisas que não conseguem resolver-se pela ética.
Se não arrepiarmos caminho, aquilo que agora ainda se denomina de crime ou escândalo, virá a ser muito brevemente o traço principal da nossa cultura.
E porque o tema hoje é este, quero deixar aqui uma palavra de apreço àquele grande homem, de pequena estatura física, Marques Mendes, que, enquanto líder partidário, tanto se bateu pela ética na política.


Zé Macário
06/05/2011

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