terça-feira, 31 de maio de 2011

Conversa de Café III


Diz o povo, e às vezes é verdade, que não há duas sem três. Pelo menos desta vez assim aconteceu.
Ontem quando entrei no café, lá estavam os nossos já conhecidos Guedes e Teodoro. Como das outras vezes, acomodei-me na mesa contígua e puxei de um jornal.
Parece que mais uma vez o tema da conversa ficara suspenso, e continuava agora de forma animada.
Disfarçadamente prestei alguma atenção, e agora reproduzo; E então aí vai:

Teodoro, lembras-te das escutas efectuadas ao procurador Cunha Rodrigues, através do microfone escondido debaixo do soalho?
Lembras-te dos desabafos de Pinto Monteiro, por se sentir escutado?
Lembras-te da bronca das escutas ao Sr. Presidente da República?
Que se fez para debelar este fenómeno? Que se saiba, nada, absolutamente nada. Afinal todos convivemos bem com isto, incluindo os próprios visados.
Como há de ser visto na «estranja» um país, em que até o seu mais alto magistrado – eleito directamente pelo povo – pode estar sob escuta?
Que garantias temos nós – populares – de que não estaremos sob escuta, quando sossegados em nossa casa fazemos amor com as nossas companheiras?
Com tantas câmaras de vídeo-vigilância espalhadas por todo o país, já fizeram baixar os índices de criminalidade?
Como é que num país quase falido, se consegue gastar tanto dinheiro em campanha eleitoral, a tentar enganar o pagode?
Acaso esses gajos têm algo para nos esclarecer, ou já estamos fartos dos esclarecimentos deles ao longo de quase 40 anos?
Se não era para enganar o povo, porque é que nesta campanha eleitoral até se alugaram «carpideiras» paquistanesas de turbante, enfatizando assim a festa ou o velório – nem sei bem?
A avaliar pelo que conhecemos do passado, para que nos serve o procurador da república? E o presidente do supremo?
Será para perturbar o andamento normal da justiça ou para evitar que os poderosos tenham de responder, eventualmente por dolo, em processos judiciais?
E já agora, para que nos serve um presidente da república, com tamanha limitação de poderes? Será só para dar música aos governos, aos partidos e ao povo?
De «músicas» já todos estamos fartos. Para sobrevivência do país, muita coisa terá de mudar em tudo isto.
Porque será, por exemplo, que os portugueses, quando associados do Sporting, do Porto ou do Benfica, tudo fazem para elevar os seus clubes aos píncaros, e enquanto membros da nação portuguesa, não têm para com ela idêntico comportamento?
Acaso será que isto acontece porque os clubes são de todos os associados, enquanto a pátria é só de alguns?
Acreditas que uma grande parte dos portugueses sabem melhor o hino dos seus clubes, do que o hino nacional, perante o qual nem sequer sentem qualquer tipo de emoção ou pertença?
Olha Teodoro, que responda quem souber, e só quando todos soubermos, poderemos mudar o rumo das coisas.

Durante toda a conversa, o Teodoro limitou-se a anuir com a cabeça e a dizer: pois, sim, realmente, exactamente…
Mais uma vez me vim embora, enquanto eles continuaram sentados e animados.


Zé Macário
27/05/2011

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