terça-feira, 31 de maio de 2011

Conversa de Café I


Estava sentado na mesa do café. Não pude – e acho que nem quis – deixar de acompanhar a conversa que se desenrolava entre dois amigos na mesa ao lado, e que me pareciam ser portugueses da classe média baixa.
Um deles desabafava:
-Sou pobre como a maioria dos portugueses, trabalho desde os seis anos de idade, cumpri o serviço militar obrigatório, estive ligado a diversas organizações de bem fazer, nunca beneficiei de qualquer subsídio do estado, nunca recorri aos serviços de saúde pública e não frequentei, eu ou os filhos, a escola pública; Assim como nunca beneficiei de habitação gratuita ou de baixa renda, oferecida pelo estado, ou seja, só a mim devo, tudo o que sou ou tenho. E tudo isto me custou muito trabalho e muitas privações.
A par disto, sempre contribui – pagando todos os meus impostos – para que os outros portugueses beneficiassem dessas regalias a que eu renunciei.
Em 1971 vivia em casa arrendada, pela qual pagava 1.400 escudos, que traduzidos em euros, seriam 7, e por mais que tivesse aumentado, não iria hoje além dos 50 euros
Fartei-me de trabalhar para ter casa própria, e hoje pago de I M I por esta minha casa 120 euros mensais – muito mais do dobro de contribuição, do que pagaria de renda por casa alugada.
Também o ensino dos meus três filhos em colégios particulares me custou imensos sacrifícios e privações, mas estes sim valeu a pena, porque hoje ganham muitos milhares de euros e já fazem parte daquela classe de pessoas que se podem furtar ao pagamento de impostos ao estado – dizem aliás que, não devendo nada ao Estado, não há de ser com os impostos deles, que os homens do governo vivem à tripa forra ou pagam compadrios. E se realmente se furtarem ao pagamento de impostos, eu nem sequer os critico por isso, dado que o estado funciona como o Robim dos Bosques, tirando aos que tudo sacrificam, para dar aos que nada querem fazer.
Pouco valem os apelos do Sr. Presidente da República, para todos cooperarmos na recuperação do Estado, se os governantes não nos derem boas razões objectivas para nos sentirmos parte integrante desse mesmo Estado, com os respectivos direitos de cidadania.
Vê lá – dizia ainda o mesmo individuo – o estado paga os abortos voluntários, os observatórios da droga, as seringas para a droga, habitações para os preguiçosos, e eu sei lá que mais, à custa dos impostos que cobra a gente honrada e trabalhadora!

Não, não me parece lícito opinar sobre a conversa daqueles dois amigos, mas lá que me pareceu curiosa, isso pareceu.
Chegados aqui, e depois de diversas considerações que aqui não reproduzo, até por me ter esquecido, viraram o tema da conversa para o funcionamento da justiça, já não da justiça social, mas agora da justiça jurídica.

Opinava agora o seu companheiro:
- No reino da justiça, reina a mais profunda abulia e a impunidade quase total.
Se quiser cobrar uma dívida, não vale a pena recorrer ao tribunal, mas antes a uma agência de cobranças difíceis.
Se um menor me incendiar o automóvel ou me assaltar a casa, não vale a pena recorrer ao tribunal, porque o menor é inimputável.
Se repetidamente assaltarem os meus haveres, vale mais organizar uma milícia popular, do que esperar que as forças da ordem acorram em minha defesa.
Um professor acusado de violação ou pedofilia, pode continuar a leccionar pelo menos até ser julgado.
Da mesma forma, também um médico acusado do mesmo crime no âmbito da sua profissão, pode continuar a exercê-la.
Um qualquer prevaricador pode arrolar centenas de testemunhas, para emperrar o andamento do processo judicial.
Um qualquer processo judicial pode demorar mais de dez anos a ser resolvido.
Os processos Felgueiras, Casas Pias, Freports, Furacões, Isaltinos, Vales e Azevedos entre tantos outros, são tudo coisas de muito má memória.
Parece tudo estar a favor dos prevaricadores, esquecendo-se o «direitos» das vítimas.

Só estou a tentar reproduzir o mais fielmente que me é possível à posteriori, a conversa desses dois indivíduos – que me pareceram bons observadores da realidade portuguesa – deixando para os leitores as considerações ou juízos de valor que muito bem entenderem.

20/05/2011

Sem comentários:

Enviar um comentário