Coincidência das coincidências, ontem estive a tomar café no sítio do costume, e lá estavam na mesma mesa, ao lado da que eu ocupei, os mesmos dois indivíduos cuja conversa tinha observado e descrito a semana passada.
Parece que o tema da conversa fora suspenso na altura por qualquer razão, e continuava agora.
Adquiri imediatamente a impressão de que um dos indivíduos – a contar pelo tipo de conversa e análise política que evidenciava – seria alguém ligado à psicologia.
Assistamos pois à conversa:
- Oh Guedes, para que o país pudesse ainda ter alguma esperança, era necessário o aparecimento de um líder que gerasse uma grande coesão nacional.
Só quem podia salvar o país, era o povo, esse povo que os governantes «mataram», e que dificilmente ressuscita.
A grande diferenciação social que estes gajos incentivaram ou consentiram entre as pessoas, faz com que estas não sintam o Estado como uma casa e causa comum, que é necessário defender a todo o custo.
Nunca mais alguém há de querer defender o Estado, mas antes, defender-se cada um por si… É o salve-se quem puder. Se o Estado não me defende, porque raio hei de eu querer defender o estado?
Como membro deste Estado, cada acto de corrupção, de furto, ou de qualquer outro, condenável pela moral, é também a mim que prejudica …E se estes actos nem sequer são censurados, e eu não quero sentir-me eternamente vítima, será natural que também me torne gatuno, corrupto, violador, e eu sei lá que mais. Cada um, tentará jogar com as cartas que tem
Porém ainda que assim não fosse, como poderia ser voluntário no pagamento dos meus impostos, a um estado que – pela inacção da justiça – consente ou fomenta aqueles actos?
O país só se levanta quando todos sentirmos o Estado como casa própria, e que todos voluntariamente queremos defender.
Quem acompanha com um coxo aprende a coxear, mas o inverso não é verdade.
Foi fácil construir-se uma sociedade espartana com as consequências que se conhecem… O que não vai ser possível, é restaurar a confiança mútua nos «vizinhos do lado», para em conjunto sentirmos o dever de edificar ou restaurar a casa comum.
Continuamos ainda a construir a Torre de Babel, e os políticos cada vez mais confusos com tudo isto.
Mas pior que tudo isto, é estes gajos pensarem que as sociedades se mudam por decreto.
Não, não é assim que funcionam os movimentos sociais.
Dos políticos existentes, seja quem for a ganhar as eleições, hão de ter de renegociar a dívida, e não nos levarão a lado nenhum. Aponta aí oh Guedes!
A despesa da conversa, esteve sempre a cargo do Teodoro, a que o Guedes só anuía com a cabeça.
Tocou o meu telefone, e tive de sair para ir atender um neto - com alguma pena minha - por não poder continuar a observar aquela conversa interessante e animada.
Zé Macário
24/05/2011
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