Teria com certeza mais de treze anos quando vi pela primeira vez um preto em pessoa; tendo visto até essa altura, deles, somente várias representações figurativas.
Até essa idade ouvia muitas vezes falar de pretos, principalmente a indivíduos regressados de missões católicas em África, que os descreviam não como pessoas, mas antes, como hoje se descrevem ou representam os marcianos; admitindo-se quando muito, que fossem criaturas de algum animismo sincrético. .
Diga-se de passagem, que sendo os missionários, nessa altura, dos poucos conhecedores da realidade africana, se compraziam de a relatar cá para os papalvos, apimentadamente recheada de vivências e peripécias sobre pessoas, deslocações, caçadas, safaris etc, absolutamente anedóticas.
Entendiam-se os costumes dos nativos africanos não como produto de culturas ancestrais, mas antes como instintivos hábitos selvagens muito próximos dos macacos, que era necessário submeter, ensinar, educar?...Ensinar, numa clara lógica de supremacia cultural e humanística da raça branca.
Num preto, todos os actos, gestos, costumes, rituais, etc, eram risíveis. Riamo-nos dos relatos da sua indumentária, adornos, tatuagens, brincos, argolas, guizos etc, colocados nos mais diversos sítios do corpo, por vezes e para tal, objecto de diversos furos e mutilações. Risíveis eram as suas formas de comer em grupo de um mesmo recipiente, e directamente com as mãos, sem qualquer garfo ou colher.
Risíveis, também entre nós brancos, eram as homenagens festivas, expressas nas mais diversas danças, gestos e rituais, que os pretos prestam aos seus «maiores»( Homens grandes ), chefes de aldeia, de concelho, de distrito, régulos, feiticeiros etc, a quem –supomos – veneram como ídolos. Como exemplo – remoto – desta forma colectiva de entender os pretos, lembro o vergonhoso facto histórico do aprisionamento e humilhação do Gungunhana, exibido pelas ruas de Lisboa como animal exótico.
No entanto, risível, risível, parece-me hoje a forma como os brancos assimilaram todos esses «bárbaros» costumes dos pretos.
Risível, parece-me hoje saber que há brancos com brincos, chocalhos, argolas ou arganeis (pircings), colocados em todo o mapa corporal, inclusive órgãos sexuais e até nas bordas do cu?!...
Risível, é que esta onda atravesse todos os estratos sociais, incluindo as «elites».
Curiosa e excepcionalmente, nunca vi nenhum militar, padre ou bancário, com algum destes penduricalhos presos às orelhas ou ao nariz, nem tão pouco, usando aquele exótico corte de cabelo tipo crista de galo.
Risíveis, parecem-me ainda as recepções a qualquer políticozeco, acompanhadas de fanfarra, banda, e tantas vezes com utilização das próprias criancinhas em encenações folclóricas, lançando a escada do «Olimpo», a balofos ídolos de pés de barro.
Entristece-me saber adulterada a língua pátria, com substituição do muito pelo bué, e apraz-me saber que os brancos ainda não comem a sopa com as mãos e directamente da panela, sem garfo nem colher.
Não é intenção deste artigo, criticar no nosso povo a importação de tão exóticos costumes e artefactos, tanto mais que alguns até nos enriqueceram, principalmente no domínio da música e da dança, mas tão somente evidenciar através destes exemplos, como anda a roda da história, praticando nós hoje os actos, que eram ontem objecto da nossa chacota.
Mudam-se os tempos, mudam-se os homens, mudam-se as vontades. Aquilo que ontem era, hoje já não é, e um dia voltará a ser.
É a roda do mundo, que nunca sai do mesmo sítio.
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