sexta-feira, 18 de março de 2011

Nostalgia III


Num dia de «fazer» do início de Setembro de 1960, logo pela manhã cedo, depois de substancial almoço e jonguidas as bacas, aí vou eu fazer a sementeira do centeio, nas terras de lavradio de cultura de sequeiro.
Pendurado em cima do jugo, levava o arado leve e frágil, só utilizado nestas sementeiras por serem terras de uma lavra terceira, numa terra já lavrada – na decrua e na estravessa.
Quase parecia um aradinho de brincar, pela estreiteza das suas avecas, pela delgadez do seu tamão e da rabiça.
A relha era curta, o ferro já muito gasto e, claro, não tinha cega.
Começo cedo e contente o trabalho em Sidoninho, um pouco a norte do berço da moira onde tantas vezes embalara a moirinha encantada, e me embalara no seu berço, perto da velha carreira de tiro, cuja antiga existência já mal se nota, e por isso mesmo, é desconhecida por muita gente.
As levandeiras e milheiriças são aos bandos, pousando na terra lavrada, e eu armo as ratoeiras, que bem cedo começam caçada.
Pelas dez da manhã faço uma paragem curta, e acomerou as bacas com um bom molho de canas de milho.
Eu que tinha ido acompanhado desde casa com uma miúda linda como os amores, de pele achocolatada, macia e aveludada – que até pensava ser moira -  deitei-me com ela em cima de um pano, cheirei-a, beijei-a sofregamente, despi-a, enquanto amorosamente a acariciava; mordisquei-a delicada e suavemente, primeiro de um lado e depois do outro…
Ela, absolutamente muda – porém, apelando vigorosamente ao meu sensualismo – parecia dizer-me: consola-te comigo, despe-me, come-me…
  Apertou-me a gula e comi com vontade, como parva, não a moira que pensava ser, mas a chouriça que era, caseirinha da nossa «lavra»!
A meio da tarde e quando tudo tinha corrido tão bem, pega-se-me o ferro do arado a uma pedra subterrânea que estava fixa, e a força das bacas, vencendo a resistência da madeira, partiram-no pela relha, acabando assim com o trabalho daquele dia. 
Recolhi a caçada das armadilhas que tinha montado e regressei a casa.
À minha espera em casa estava uma bôla de milho acabadinha de sair do forno, que parti aos bocadinhos e temperei com azeite e açúcar.
Este pitéu fez-me esquecer as agruras da perda do arado.
Como se era feliz com tão pouca coisa!...

Zé Macário
12/12/2010

Sem comentários:

Enviar um comentário