sexta-feira, 18 de março de 2011

Se Bem Me Lembro



                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
Se bem me lembro… Plagiando Vitorino Nemésio, o tal de «Mau Tempo No Canal», ou melhor, não plagiando, porque o termo se bem me lembro, era já corriqueiro entre as gentes Lamecenses:
-Se bem me lembro – dizia eu – O Ti Varanda era um dos velhinhos que povoam as brumas memoriais da minha infância.
Tinha uma acentuada corcunda, andava com as mãos «atadas» atrás das costas como os polícias, usava, como o Ti Branquinho, sapatos de «barro» em vez de tamancos, tinha um andamento esquisito, saltitante como se pedalasse uma bicicleta, e passava a sua vida guardando a água no rego do lameiro, a caminho do Paúlo.
Tinha uma filha solteirona, baixa, gorducha e corada, não muito bafejada pela beleza, pelo menos com aquela beleza que no meu conceito subjectivo de criança, de quatro ou cinco anos, achava ficar bem assente no género feminino. 
Esta filha, a Rosa Varanda, era uma simpatia de pessoa e nunca passava por mim sem me fazer algumas gracinhas, e de tal forma eu gostava dela, que os adultos já me diziam com ar de gozo, que ela era a minha namorada.
Pois um dia, meus amigos, enguenchei com a Rosa Varanda, e, logo depois daquela lengalenga, enguenchar, enguenchar, para dia de Páscoa me dares o folar e tal tal, tal tal, ela, aquela Rosa, deixou-se ficar com a minha reza. Como era bondosa aquela Rosa!
Passei semanas e semanas – que me pareceram anos – a esconder-me entre os carvalhos, os pinheiros, as paredes, para a surpreender com a minha reza, tendo porém sido muitas vezes surpreendido com a sua, porque também ela se disfarçava e escondia para me surpreender e mandar rezar. 
Porém, ao tê-la mandado rezar aí pela Quinta Feira Santa, não mais voltei para as bandas do Paúlo até ao Sábado-Aleluia – assim se chamado naqueles tempos, por ser às nove horas de Sábado Santo que, os santos despiam o seu luto.
Pois a Rosa Varanda ficou com a minha reza, e portanto ganhei-lhe o folar. A Rosa terá adoecido e morreu sem me pagar – possivelmente uma quarta de confeitos ou mesmo só dois confeitos para jogar o rapa… Que pena eu tive que a Rosa não me tivesse pago, e durante muito tempo esperei que ela me aparecesse – bondosa como era seu timbre – a entregar-me, com um beijo, a prenda que me devia.
Que pena eu tive que a Rosa me deixasse, quase órfão, no Paúlo ou no rego da Lameiro.
Fiquei mais pobre e só, com a falta daquela Rosa.
Que Deus a tenha por lá a distribuir os confeitos que não pôde dar-me!...



Zé Macário
02/01/2011

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