In illo tempore, quando eu era ainda uma inocente criancinha, e semeava migalhas de pão, esperando que nascessem broas inteiras e grandes; quando os barbeiros e os ferradores, fazendo de médicos, prestavam serviço porta a porta e eram avençados pelos seus trabalhos, também os bois, cavalos, e porcos de cobrição, eram avençados pela sua actividade de padreamento. Era uma sociedade essencialmente rural, e a avença consistia, no pagamento de umas tantas medidas de produtos agrícolas, a esses e a outros prestativos.
O país era profundamente religioso, havia muitos padres e, os seminários, sempre cheios, eram verdadeiros alfobres de sacerdotes.
Os candidatos ao sacerdócio eram sujeitos a duas tonsuras, – primeiro, uma em semicírculo e depois uma segunda e definitiva, completando o circulo, do tamanho de uma moeda de vintém, no alto do toutiço – como sinal de renúncia à vaidade. Parecia-me isto tão ridículo, quanto esses cortes de cabelo em forma de crista de galo, que por aí se exibem nos dias que correm.
Havia muitos pregadores, e os sermões eram, quase invariavelmente, aterradoras ameaças do fogo do inferno às almas pecadoras, ao qual, porém, poderiam escapar com a aquisição de indulgências. Não sei o que estas eram, por quem eram concedidas, nem o que ou quanto se pagava por cada uma.
Sei, é que os templos andavam por essa altura, cheios de pessoas de cabeça à banda e ar humilde e compungido, com aspecto de arrependidos de pecados que desconheceriam. Enfim, era a sociedade do medo.
Havia nesse tempo duas qualidades de pecados – mortais e veniais – estes segundos, mais leves que os primeiros, e que eu julgava serem de os maridos espancarem as mulheres e os filhos, acto a que aliás se chamava dar a criação (educação), e era considerado dever de qualquer homem que se prezasse.
Casar as filhas, podia ser sinónimo de torná-las escravas ou mandá-las para o matadoiro.
Era neste ambiente, e para fugir à fome e à dureza do trabalho – também infantil – que eram recrutados os garotos que enxameavam os seminários; e foi neste ambiente que também eu fui internado num seminário, bem longe da família – que aliás só visitava por altura das férias grandes.
Embora fosse um puto reguila, e já fosse às pútegas desde os três anos de idade, e as conhecesse bem pelas suas roupagens e barrigas, foi nesta primeira viagem para o seminário, que eu percebi que o mundo era afinal muito maior, do que aquele que estava limitado pelos montes da Póvoa, de Penude, de S. Domingos e do Marão.
O pecado que eu mais despejava no tegão das confissões, era o generalista de maus pensamentos – pecado que aliás voltava a cometer, antes ainda de acabar de rezar a penitência. Porém era realmente uma alma atormentada pela ideia de pecado, de tal forma que, pensava, só a autoridade do papa poder absolver-me de tão graves pecados. E foi esta alma assim atormentada, que o meu pai resolveu mandar para o seminário, preparar-se – segundo palavras suas – para ser padre e ir pelo mundo fora salvar almas das garras do Mafarrico e do fogo do inferno. Não aguentei a reclusão, e saí ao fim do segundo ano, possivelmente com medo também que se cumprissem em mim as profecias do Ti Beijamim Ramalho e de muitas outras pessoas que afirmavam, que eu sofreria a tonsura e teria também de ser capado.
In illo tempore, os adultos nunca se lavavam, e a garotada masculina, só o fazia no rio Balsemão – fugindo aos pais – na alta tineira do verão.
Imaginem agora vocês, gente nova, o cheiro a bedum, misturado com fumo e álcool, exalado por aqueles corpos machos.
Nos domingos mais soalheiros, era normal ver as famílias nas suas varandas, catando – com auxílio de um pente especial – os piolhos e lêndeas, que esmagavam entre as unhas dos dois polegares, num rito maquinal ancestralmente herdado, como verificamos nas comunidades de macacos.
Sim, é esta uma pequena amostra da sociedade em que vivi na minha infância e parte da juventude.
Zé Macário
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