sexta-feira, 18 de março de 2011

A Vela Mágica




Recebi aos dezoito anos de idade, uma vela que havia sido fabricada treze anos antes de eu nascer.
Foi-me oferecida embrulhada em papel de celofane, dentro de uma caixinha lacrada, com data de fabrico – que, traduzida em linguagem de enólogo, diria, reserva especial de 1931. Tinha um laçarote a enfeitar, e um cartão com um recado: - estima-a, porque é especial.
Desfiz o laçarote, quebrei o selo, abri a caixinha, e logo se acendeu – qual lâmpada de Aladino – aquela vela, há trinta e um anos fechada na beleza daquele invólucro.
Irradiava uma luz estranha, como estranho é tudo o que é mágico… Iluminava sem iluminar, e iluminava-se sem se iluminar.
Brilhava ao longe a chama desta vela, que, ardia sem se consumir, e que não iluminando, iluminava.
Também, tal como com a lâmpada de Aladino, extremamente sensível aos afagos, logo se cumpriam em mim todos os desejos, sempre que com ternura a afagava.
Brilhou com a mesma intensidade durante quarenta anos – tantos, quantos o povo judeu vagueou pelos desertos, a caminho da terra prometida.
Um dia porém, ganhou morrão o pavio daquele círio, e continuando a emitir algum brilho, não mais iluminou ou se iluminou.
Começou agora a derreter a cera da vela, cujo pavio sempre ardera sem se consumir, e sente-se já muito mais escuro, aquilo que nunca fora iluminado.
Aumenta o morrão, derrete-se a cera, e é menor todos os dias o brilho daquela chama; só agora percebendo como ela me iluminava, com a sua simples existência, e como eu gosto dela.
O amor é chama que arde sem se sentir e sem se ver, e só com a perda do objecto amado, se percebe afinal como se amava, e como é dura a dor da perda.
Oh, como eu gostava, de continuar a ter o brilho daquela estrela!...







1 comentário:

  1. Foi um dos textos mais interessantes que li até hoje,é bastante emocionante.
    Tem um potencial para a escrita que é inexplicável.

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