Muitas vezes me tenho colocado a mim, ou a um qualquer alter ego, a seguinte pergunta: Quem sou?
Serei realmente quem penso que sou? Sou antes quem tu pensas que sou?
Alguém me confidenciava a propósito de um artigo meu: Nunca te imaginei com aquele tipo de sensibilidade…
Então, eu não sou quem aquele amigo sempre pensou que eu sou, e ele construiu de mim, uma imagem distorcida…
Porém, que certeza tenho eu também, de ser quem eu penso que sou?
O que será mais importante e real na minha existência, quem eu penso que sou, ou o que o outro, ou a comunidade pensam de mim?
Por exemplo, eu penso ser sério, cumpridor e honesto; Porém se a comunidade ou o outro, tiverem de mim uma ideia diferente, eu não consigo em qualquer lado obter o crédito necessário para a pessoa que julgo ser. Logo o que a comunidade pensa, passando a ser um estorvo ao meu ser, me torna naquilo que eu não sou.
Há muitos anos atrás, em Atenas, um outro Sócrates que não o nosso, arguido de um julgamento que durou vários dias e noites, em vez de argumentar a sua defesa, fazia antes a apologia do Eu, embora com a certeza absoluta de que não iria mudar nada no veredicto daqueles juízes, por eles já terem formado por antecipação uma opinião contrária à sua essência, ao seu eu, e a verdade é que este amigo acabou condenado à morte, tal como previra e afirmara, por ter sido mais importante a imagem preconcebida daqueles juízes, do que o que ele sabia de si próprio. De nada lhe valeu a sua honorabilidade, seriedade, e honestidade, porque a realidade da sua existência passou a ser a realidade que os outros lhe construíram.
Devo então ser quem sou, ou antes esforçar-me por construir de mim a figura que julgo ser do agrado do outro? Que realidade teria afinal essa outra figura? Terá algo de real a realidade que outros constroem do meu eu, ou de um qualquer alter ego, perante a complexidade e intimismo do meu pensar, agir e reagir?
Se a opinião dos outros acerca de mim, faz que seja o que não sou, ou que não seja o que sou, então não há realidade em mim, porque essa realidade depende da visão dos outros.
Porém o olhar dos outros não pode trespassar o muro que veda o quintal da minha intimidade, com todo o seu labirinto de complexidades.
Penso ainda que tentar ser o que os outros querem, é aniquilar a minha personalidade, ou seja, desvirtuar os caracteres ou características que me tornam pessoa.
Porém, depois deste pequeno exercício de pensamento, continuo perguntando: Quem sou afinal?
Acredito ser simples criatura de um Deus Maior, orgulhoso de ser pessoa, e capaz de fazer perguntas que nunca verei respondidas.
Zé Macário
Santa Iria da Azóia
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