Estávamos em meados da década de 1950.
O alcunhado Russo, cujo nome próprio eu não conheci, e foi o actor a quem atribuo o papel principal desta história, era natural e residente de Meijinhos.
Era um rapaz com fama de temível desordeiro, que infundia medo às pessoas, até mesmo às forças da ordem pública.
Conhecia a sua fama de homem mau, fama que se estendia às redondezas, mas só tive o desprazer de o ver uma vez ou duas.
Pois este herói das dúzias, casou-se com uma rapariga do Travasso, pequena aldeia hoje desaparecida, mas onde nessa altura muravam meia dúzia de famílias miseráveis, e que fizera mais essa miserável aquisição.
Logo terão começado os desacatos com a vizinhança, e com a própria esposa, de modo a trazer toda a gente tolhida de medo.
Pois um dia, a mulher, apavorada e farta de o aturar, terá comprado – ou pelo menos, isso era voz corrente na altura – por oitenta escudos, os serviços de seu pai, de seu irmão, e de dois primos, para que lhe liquidassem o marido.
E assim aconteceu.
Um dia, enquanto o Russo dormia no quintal da sua casa, à sombra de uma figueira, os contratados caíram-lhe em cima e assassinaram-no.
Depois transportaram o cadáver até meio caminho entre o Travasso e a Quinta do Pereiro, onde o deixaram acompanhado de um saco de feijão verde, para desviar suspeitas do assassínio, para alguém que porventura o tivesse encontra a roubar feijão.
No entanto, investigações policiais, cedo descobriram os autores do crime, não tendo porém conseguido provar a cumplicidade da mandante.
Embora tudo apontasse para a sua cumplicidade, esta não foi provada pelo tribunal, nem nunca denunciada pelos executantes.
Julgado o crime, os réus foram todos condenados a vinte e cinco anos de prisão efectiva, e a oitenta e cinco mil escudos de indemnização à viúva, que por acaso estava grávida.
O engraçado da história, é que a viúva só tinha pago oitenta escudos pela encomenda do crime, e os réus que o executaram eram agora condenados a pagarem-lhe oitenta e cinco mil escudos.
Com certeza que ela nunca receberia os oitenta e cinco contos, porque eles eram miseráveis demais para que algum dia lhe pudessem pagar, mas lá que foram condenados, foram.
A cidade de Lamego encheu-se de gente das redondezas para assistir ao julgamento, porém, nem um décimo coube na sala do tribunal. Eu estive lá.
Zé Macário
28/03/11
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