Pode parecer mentira, mas é verdade. Por princípios de 1967, passei cerca de 15 dias de insónias, sem conseguir adormecer, e sem razão conhecida.
Bem insistia com o enfermeiro para que me desse algum comprimido para dormir, ao que ele sempre respondia: espera que o sono venha; não te dou comprimidos para não te provocar a habituação.
Verdade, verdadinha é que o sono veio, e em dozes industriais. Principalmente de noite, dormia em todo o sítio, e era normal dormir e mesmo sonhar, quando de noite, na mata, caminhávamos em fila indiana para qualquer objectivo; o que originava que muitas vezes saísse da fila e caminhasse em direcção diversa. Valia-me nessas alturas, o meu guarda-costas e grande amigo Teixeira – um rapaz de Castanheira de Pêra – que acordando-me, me reorientava a marcha. Devo tanto àquele homem!
Certo dia, estando em Mansábá, tivemos a informação de que o mais alto dirigente do PAIGC, iria fazer uma palestra à mata do Saraol, para tentar levantar o moral dos seus Guerrilheiros.
Organizou-se uma coluna de cerca de uma dúzia de viaturas militares, e duas civis, com destino a Mansoa e, a meio caminho – em Cutia – apear-se-iam sem alarde, dois pelotões, que iriam fazer uma emboscada a esse alto dirigente e sua comitiva, cujo percurso estava assinalado. Entretanto toda a coluna de viaturas seguiria ao seu destino.
Antes de andar 2 kms, já eu dormia a sono solto, deitado no estrado da última viatura da coluna. Eis se não quando, por cerca do oitavo km – meio caminho entre Mansábá e Cutia – perante uma travagem brusca da viatura, acordei, surpreendido pelo espectáculo de um inferno de fogo do IN que imobilizara a coluna, enquanto os nossos soldados rastejando protegidos pelas viaturas, já respondiam ao fogo. Sim, estávamos a ser terrivelmente fustigados pelo vómito do fogo de toda a sorte de armas: bazucas, rockets, morteiros 60 e as desembaraçadas costureirinhas (kalashnikovs).
Chega à rectaguarda a informação de que a viatura da frente, tinha sido atingida logo pela primeira bazucada do IN, e havia dois mortos, e os restantes ocupantes todos feridos – alguns com muita gravidade.
Analisada imediatamente a situação, urgia tirar as viaturas para fora da zona de morte.
Só com grandes berros e a pontapé consegui que os condutores retomassem os seus lugares e pusessem em movimento as viaturas, até porque, tremendo com tão grandes nervos e “cagaço”, nem as chaves de ignição obedeciam. Minutos infindáveis estes!
Enquanto ordenava o movimento, acho que alguém do IN me reconheceu e tentou alvejar-me; pois senti uma bala passar-me bem junto de uma orelha.
Protegi-me por uma viatura, e quando apareci desprotegido a dar mais ordens, outra bala me passou junto da orelha. Eram milhares e milhares de balas que se disparavam sobre nós e as viaturas, mas distingui bem aquelas duas com que tentaram alvejar-me.
Pareceram muitas, muitas horas, aqueles poucos minutos em que assim fôramos flagelados.
Retomada a marcha, parámos em Cutia – já em segurança – para tratar da evacuação dos mortos e feridos; porém, mesmo aqui, os minutos eram horas de desespero, à espera que chegassem os “hélis” com as enfermeiras paraquedistas, para livrar da morte alguns dos feridos graves.
Nunca falei destas coisas nem à própria família – como aliás, penso que, a grande maioria dos camaradas de armas – e só agora (não sei porquê) escrevo sobre elas.
A língua porém, ainda não se me solta.
Sta Iria
7 /11/2010
7 /11/2010

Sem comentários:
Enviar um comentário