Enquanto miúdo, invejava as pessoas da cidade de Lamego.
Invejava os penteados, os vestidos sem remendos, as gravatas, as camisas lavadas, e até as mãos lavadas e brancas.
Invejava os calções dos garotos da minha idade, que, comparados com as minhas calças de remendos, eram um luxo…
O que porém mais invejava, eram os “inhos” daquela gente.
Havia Manelzinhos, Zézinhos, Quimzinhos, Paivinhas, Miquinhas, Teresinhas, Laidinhas, Lourdinhas… Tudo, coisas que não havia na aldeia.
E a atitude da gente da aldeia perante a da cidade, era uma atitude de visível submissão.
Hoje, esbateram-se muitas diferenças, tendo permanecido porém o “inho” dos citadinos lamecenses.
Não conheço em todo o país outra cidade, com uso de tantos diminutivos.
Será sempre a cidade dos jeitinhos, dos favorezinhos, das palavrinhas, dos momentinhos.
Se quiserem perceber melhor este fenómeno, oiçam na rádio, um qualquer programa de discos pedidos, com dedicatórias.
Também não deve haver no país, cidade com tantos cafés e com tão altos preços de trespasses e alugueres, se bem que estes estabelecimentos estão sempre cheios de clientes.
Não, neste sector nunca haverá crise.
Mais que os alentejanos, os lamecenses têm absoluto desprezo pelo tempo; o que não se faz em dia de Santa Luzia, faz-se ao outro dia.
Quando se entra num qualquer estabelecimento, se o funcionário ou funcionários, estiverem com alguém em qualquer conversa da treta, é preciso tossir alto, várias vezes, até que dêem pela nossa presença
Certamente não haverá também no país, automobilistas mais respeitadores das passadeiras para peões, pois param em todas, ainda que não haja pessoas para passar.
Tal respeito pelos outros, não evidenciam, quando param e abandonam despreocupadamente os veículos no centro de qualquer rua da aldeia, estorvando a passagem de outros.
Recordo-me ainda de esta cidade ser habitada maioritariamente por militares, polícias e padres, de tal forma que se temeu a sua extinção, quando no final da década de 1950, terminou ali a actividade do regimento de infantaria 9.
Hoje não é tão evidente a presença de militares, dos padres sabe-se menos por terem deixado de usar farda, e quanto a polícias, são tantos que até estorvam – aliás, estorvam sempre. Normalmente os bancos da avenida principal, estão desde manhã cedo, ocupados por polícias reformados.
Parece que, por deformação profissional, têm dificuldade de comunicar com outra gente, e por isso se procuram mutuamente, para manterem entre si a conversa em dia
Uma coisa que também nunca percebi, é como esta cidade com uma indústria tão diminuta, mantém um comércio tão pujante.
Sta Iria
Zé Macário
23/02/2011
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