quarta-feira, 30 de março de 2011

A Minha Avó


A minha avó, Maria Duarte, da Póvoa, era uma «plebeia» com porte altivo, polido e aristocrático.
Era uma mulher alta, esbelta e bonita, que, enquanto jovem solteira, deveria ser a fina flor lá da terra. Embora muito arisca, não lhe terá faltado pretendentes.
Pelo contrário, o meu avô, Joaquim Gonçalinho – por alcunha o Rangeta – embora atrevidote, era uma fraca figura, baixo, enfezado, de um cabelo muito raro…
Calhou porém ao meu avô, caçá-la em boa maré, num trigal, onde ambos se terão rebolado e onde ela, gulosa, terá engravidado, só com as cigarras por testemunhas e batendo palmas.
Depois só tiveram de apressar o casamento, para evitar o escândalo.
Ora, a minha querida avó teria sido empregada doméstica, na Régua, na casa de uma família de bem, de ascendência aristocrática. E aí aprendeu a ler e a escrever bem – o que, para a época e para o sítio, era algo de muito importante, tanto mais que era a única pessoa com tal atributo – para além de se ter tornado uma excelente cozinheira.
Era alegre, de verbo fácil, e raciocínio rápido.
Óptima contadora de histórias e de anedotas, ria-se destas, mesmo antes de acabar de as contar. Chegou mesmo a escrever-me uma peça de teatro.
Até aos noventa e dois anos – e graças a Deus, com boa visão – todos os dias, fazia pelo menos duas horas de leitura, sendo o absoluto oposto dos seus irmãos que – ao que se diz – eram três grandes broncos.
Os cozinhados que saíam das mãos daquela bendita senhora, eram de sabor divinal, e tentou passar às filhas essa arte de bem cozinhar. Estas, porém, embora boas cozinheiras, ficaram a milhas da sua mãe.
A minha avó – que muito cedo ficou sozinha, por ter enviuvado nova – cozinhava a lenha, normalmente no chão, nuns pequenos pucarinhos de barro preto, e eu, sempre que podia, escapava-me aos meus pais, para ir atrás do cheiro que ressoava da sua cozinha.
Não tenho avó há muitos anos, no entanto, sempre que me cheira a boa cozinha, vem-me há memória a sua imagem.
Na Póvoa, a Ti Maria Duarte, é também lembrada ainda hoje, pelos seus ditos acertados, espontâneos e instantâneos.
Era também esta mulher de «armas», que estava sempre à cabeceira dos moribundos, lendo-lhes o livro da agonia, tentando assim suavizar-lhes a morte. Mesmo quando já não sabia se estava a ser ouvida, continuava a leitura, até ter a certeza, de que a morte tinha enfim consumado o seu trabalho.
Por isso, muitas das vezes que a recordo ou sonho com ela, vejo a sua figura entre poldras, no meio de um rio, ajudando as pessoas a atravessar confiantes, de uma margem para a outra.
Foi com certeza por todas as suas acções, que ela se perpetuou tanto na memória das pessoas, especialmente na minha.

Zé Macário
28/03/11



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