sexta-feira, 18 de março de 2011

Nostalgia IV



Teria menos de cinco anos quando o meu pai me levou pela primeira vez às pútegas.
Teria a mesma idade quando me ensinaram a conhecer e descobrir sanchas e gasalhos.
Teria um pouco mais de idade quando comecei a prestar atenção à idade do gado, através de um exame aos dentes; ver se um animal ainda era novo e se estava ao primeiro, ou se já mais velho e estava a cerrar . Aprendi ainda a ver se uma vaca tinha
Formigueiro nos cornos ou se teria mosqueiro na pele.
Apreciava como a minha mãe lavava minuciosamente a loiça com carquejas, como esfregão.
Por estas idades já me ia embalar no berço da moira, ou ainda, inspeccionar a pedra da galha para tentar descobrir vestígios do pote de ouro deixado pelos moiros quando da sua fuga, mas sempre com muito medo de ser surpreendido pelo pote de veneno que se supunha estar dentro, para confundir.
Foi ainda por esta idade que conheci e comecei a comer queijapões.
Porém a minha nostalgia revela-se mais na idade escolar, em que ajudámos a construir uma bicicleta de madeira para o Fausto, ou comíamos os ovos cozidos do Manel D’Amblina, depois de lhe termos provocado o enjoo, com o pretexto de a mãe dele os ter cozido na labaige dos porcos.
Foi com a minha professora, Dona Natividade, na minha terceira classe, que eu vi pela primeira vez uma esferográfica (bic cristal) que a mãe do Fausto lhe mandou de Lisboa, e que escrevia a tinta, sem borrar o papel – parecia inacreditável, até para a professora.
Durante muitos anos ainda, era proibida a sua utilização em documentos oficiais.


Zé Macário
12/12/2010

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