sexta-feira, 18 de março de 2011

Nostalgia II




Que pena eu tenho do meu tempo de rapazote, quando via as searas de centeio verdes ou loiras, ondulando ao vento desde a Póvoa até Juvandes. Quantas saudades dos pinhais sempre bem limpos e dos montes bem pelados. E dos caminhos sem empecilhos que num ápice me levavam ou traziam do rio. E do verde extaseante que constituíam as centenas de canteiros bem cultivados desde a capela até ao rio. Sim, também das manadas de vacas e rebanhos de cabras e ovelhas que povoavam o monte, do calvário até ao picoto.
Lembro com saudade as carradas de cereal que atulhavam as eiras e depois os celeiros.
E a azáfama das malhadas! Sim, lembro-me de tudo isto como se fosse de ontem ! Mas não, não é… São lembranças de há muito tempo atrás.
Povoa ainda a minha memória, a vaidade com que os lavradores enfeitavam as vacas com franjas e campainhas e como escolhiam a madeira para que o eixo do carro chiasse melhor.
Conversava-se à noite sobre o carro que melhor chiava, a égua que mais corria ou a vaca que mais marrava ou melhor lutava.
E as desfolhadas, meu Deus !?...Eram sempre de noite as desfolhadas, e era o trabalho-festa por excelência, e o que mais entusiasmava a juventude, e em que toda a gente participava alegre ou pelo menos condescendente com os folguedos dos rapazes e raparigas. Sim, lembro-me com saudade!
Na Póvoa já não uivam os lobos, não cantam os grilos nem os ralos, e já não cintila tanto o firmamento.  Que pena !
Recordo e compreendo hoje muito bem o que em tempos idos tanto me custava, tal como:  pedir a bênção aos pais, tios, avós e padrinhos; ou chamar aos avós, pais, tios, etc, Senhor avô, Senhor pai ou Senhor tio.
Tenho saudades do caldo de couves, do caldo de cebola, dos milhos, das falachas e de outros pratos que tanto detestava.
Recordo nostalgicamente a minha vaca Ramalha, a burra Ruça, e a cabra Morinha.
Melhor dizendo, não sei se é de todas estas coisas que tenho saudade, ou se essas saudades são só dos vinte anos que tive, há cinquenta anos atrás
Se porém tenho saudades deste retrato bucólico que descrevo, onde a natureza – qual realizadora de puzles – se encarregava de pôr todas as peças no lugar certo, o mesmo
não sinto dos trabalhos e sacríficios desse mundo rural de meados do século XX. A terra era madrasta para todos os seus naturais, e estes tinham de abandoná-la com lágrimas nos olhos – porque é sempre triste a separação.
Tarde demais, hoje a terra recebe de braços abertos os seus filhos que –saudosistas – regressam de cabelos brancos, porém não, não está lá o tal bucolismo encantador de antigamente.
A natureza já não organiza, os residentes não a ajudam, as flores já não aparecem ordenadamente, e os cheiros desapareceram; E as minhas saudades são mesmo só, dos vinte anos que tinha há cinquenta anos atrás

Lisboa  30  de  Setembro  de  2010 


Zé Macário

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