In illo tempore, corria o ano de 1963, morando eu na Matancinha, fui insistentemente abordado por um cunhado, membro da LAC, para participar num retiro de uma semana na sede da paróquia.
Penso que fazia parte das funções dos membros da LAC, trazer para o aprisco do Senhor, algumas «ovelhas» arredias.
Ao tempo, era pároco de Penude um tal padre Borges, por quem eu não nutria qualquer simpatia, sentimento aliás recíproco, pois tinham acontecido mesmo, entre nós, alguns episódios antipáticos.
Depois de muito instado, lá me comprometi a frequentar o dito retiro, mediante a prévia condição privilegiada, exigida por mim, de dormir sozinho numa enxerga.
Decorria já o primeiro dia do retiro, quando alguém conseguiu aliciar o Zé Reluz para a frequência do mesmo; pelo que fui abordado para dividir com ele a enxerga que me estava destinada. Dispunha-me eu já a ceder-lha alegremente, mas recusando-me a dormir acompanhado, encontrava o pretexto de, por sobrelotação, retirar-me para minha casa. Lá se arranjou outro cómodo para o Zé Reluz, e o retiro continuou com a presença de ambos.
Esse retiro constava de compor um certo ar compungido – como aquele que se ensaia para os velórios -, assistir a umas tantas palestras de uns tantos padres convidados, e o restante tempo era ocupado com orações e leituras de textos a condizer.
Fui nomeado leitor «oficial» e, parece-me que, a avaliar pelas caras e comentários dos ouvintes, desempenhei muitíssimo bem a função.
Era o mais novo dos circunstantes, sendo mesmo muito mais novo do que os filhos de alguns deles.
Recordo ainda as caras contritas e introspectivas de alguns, entre os quais o Priscas do Bairral que, acreditei, iriam corrigir radicalmente os rumos das suas vidas.
Eu porém, sentia-me ali, como simples observador da teatralidade das fisionomias.
Dos participantes naquele retiro, só eu estou ainda vivo; todos os outros já terão prestado contas ao Criador.
Continuam ainda bem vivos os filhos bastardos de alguns deles, que nunca largaram a condição de filhos de pais incógnitos; nunca receberam dos pais qualquer ajuda na criação e educação, nem um chavo de herança, e menos ainda o reconhecimento oficial de paternidade.
Santa Iria 20/11/2010
Zé Macário
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