Até há muito poucos anos atrás, víamos pela televisão nos dias 5 de Outubro de todos os anos, dois ou três «velhos marretas» republicanos, a depositar ramos de flores junto ao busto da república; nunca tendo eu percebido o que celebravam afinal aqueles «marretas».
Todo o país era condescendente com o divertimento daqueles velhinhos, aparecendo na televisão – já beijando a biqueira do sapatos com a ponta do nariz, e o fraque todo seboso – na prática de tais actos, sem a isso se atribuir qualquer significado, que não o divertimento desses pobres; e a Sra. D. República – sempre bem penteada, embora com o mesmo penteado – recebia-os de nariz franzido, não sei se pelo fétido cheiro exalado dessas múmias animadas, da naftalina dos fraques, se pelo reflexo de tantas medalhas, ou porque as flores – eventualmente roubadas de algum cemitério – se apresentassem excessivamente murchas.
Pensei que com o desaparecimento daqueles velhos prosélitos republicanos, teria desaparecido a república, ou pelo menos o tal sentimento ou ideal republicano;
Verificando agora que afinal, tal parece não ser verdade, pois está decretado para este ano, o jubileu das celebrações do seu centenário.
Com que júbilo se pode celebrar um regime --que embora centenário – nasceu em crise, viveu sempre em crise e continua em crise?
É porém certo e sabido que muitas famílias oportunistas enriqueceram com o regime republicano, tendo como consequência o empobrecimento da maioria, como sempre acontece. E manda-nos a classe política dominante – a tal que mama sôfrega nas tetas do regime – que celebremos a república… Brindou-nos sempre a república com políticos medíocres, e nós celebramos…Brinda-nos o 25 de Abril com políticos incompetentes e nós celebramos… E eles incham mais e mais!
Perdemos a ideia de pátria, de país, de fronteira, e esquecemo-nos de símbolos como o hino nacional e a bandeira, mas celebramos a república e o 25 de Abril sempre…
Que povo é este, meu Deus? Que povo é este?
Se algum dia foi alguém, se fomos um império, se conquistamos mares e novos mundos ao mundo, foi com a monarquia.
Que haveremos nós de celebrar com o regime republicano ou com o 25 de Abril?
Que fomos mal governados em todo o tempo do regime republicano, é a verdade que todos os governos da república afirmam de todos os outros governos da mesma república; aliás todas as campanhas eleitorais se baseiam em dizer mal dos governos que as antecedem.
Após o 25 de Abril destruíram-se as escolas profissionais, a agricultura, a pesca e boa parte do tecido produtivo, enquanto o país é agora um imenso matagal, pasto perfeito para chamas dos incêndios de verão.
O desemprego grassa e cresce, e a breve trecho pode acontecer uma desagregação social; e a república rejubila, festeja, celebra e comemora!...
Acaso os escândalos de corrupção, de pedofilia, a ineficácia da justiça, nos dão algum motivo de celebração? Ou será tudo isto a tal ética republicana?...
Estamos em crise, mas iremos celebrar em júbilo, e gastar, gastar, gastar!...
Como diria outro medíocre republicano que muito mal governou este país, e a quem depois arranjaram um grande tacho junto dos miseráveis dos refugiados: é a vida!
LISBOA 21 de SETEMBRO de 2010

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