sexta-feira, 18 de março de 2011

Lembranças V




Aquele homem havia sido feito prisioneiro. E como era hábito no tratamento com prisioneiros, depois de lhes extrair todas as informações de seu conhecimento – normalmente sob tortura, e havia pessoal especializado nessa área – sobre efectivos, localização, armamento etc das forças do IN, levava-se preso com uma corda, como guia, numa futura operação à base de onde era oriundo.
Como ia sempre à frente, preso por uma corda a um milícia local, indicando o trilho para o objectivo, era o primeiro a despoletar e sofrer os efeitos da detonação de uma qualquer mina anti pessoal.
Ora o homem de que falo, lá foi nessa noite guiar-nos numa operação.
Depois de longas horas de caminhada na selva e já próximos do objectivo que nos propúnhamos, este prisioneiro-guia fez-nos perder várias horas, enganando-nos nos trilhos conducentes ao objectivo, denunciando assim a nossa presença e anulando o efeito surpresa que pretendíamos.
Só pela manhã percebemos que toda a noite fôramos enganados. Assim anulámos a operação e regressávamos à nossa base sem encontrar o tal objectivo de que estivéramos tão próximos.
Ao saberem-se enganados, depois de tantos sacrifícios no itinerário percorrido na selva densa, apoderou-se dos nossos militares uma espécie de loucura colectiva, e numa atitude de absoluta, demente e covarde desobediência à cadeia de comando, muitos quiseram – praticando as piores sevícias – trazer como troféu, um qualquer bocado   do corpo vivo daquele prisioneiro-guia. Foi impossível travar a loucura dos nossos homens…A guerra é assim: transforma muitas vezes os homens em autenticas bestas-feras; e nestas alturas não há convenções ou convénios que valham.
Já o sol ia alto quando este homem, sentado impávido e serenamente junto ao tronco de uma árvore, foi fuzilado pela rajada fulminante de uma metralhadora de um militar transtornado, com apoio da maioria dos outros. Sofreu as maiores sevícias sem nunca manifestar qualquer sinal de dor. No seu olhar não havia ódio nem medo ou se descortinava outro qualquer sentimento. Tinha o seu espírito muito longe dali.
De olhos bem fixos, a cerca de três metros do seu último algoz, recebeu a morte de braços abertos.
Levei o resto da minha vida interrogando-me sobre o que teria dotado este homem de tanta coragem e dignidade.
Arranjei para mim uma explicação: só o facto de haver filhos deste homem na base que íamos atacar, o poderia ter dotado de tanta coragem.
Acaso seria isso?..
Sei, é que aquele cadáver ali ficou numa pequena clareira da mata do Morés, para pasto das hienas e dos abutres.

Zé Macário
Sta Iria da Azóia
28/11/2010

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