Decorriam os exames do quinto ano, julgo que do ano de 1963, no liceu nacional Latino Coelho em Lamego, quando o meu amigo Gil – rapaz de S João da Pesqueira – ao não se sentir bem preparado para o mesmo exame, resolveu, com dois dos seus irmãos – não sei se teria mais – resolveu, dizia eu, preparar e utilizar um engenhoso sistema de comunicações, através do qual pudesse com distinção fazer a respectiva prova.
Na alameda à frente do liceu, os dois irmãos – mais velhos – munidos de um aparelho de rádio de sua construção, cruzavam com o Gil – ligado a estes na sala de exames – perguntas e respostas, sem que ninguém se apercebesse da marosca; tão bem disfarçado estava o dito sistema.
Azar dos azares, e por pura coincidência, o Sr Costa, proprietário de uma papelaria naquela cidade cujos clientes eram principalmente estudantes, sintonizou o seu rádio na mesma frequência da dos outros protagonistas desta história, captando as mensagens e, irritado, foi com o próprio rádio à sala de exames e aí denunciou o meu amigo Gil, que assim viu gorada toda a sua expectativa.
Porém ao Gil veio a ser dada a possibilidade de repetição de exame – que veio a decorrer com êxito – porque este caso, que despertou paixões, e deu brado nacional, gerou uma grande onda de solidariedade com o rapaz, essencialmente pela natureza pioneira da invenção.
O Sr Costa, objecto de repúdio e de chacota pública, fechou a papelaria e emigrou para o Brasil, porque os estudantes deliberaram dar uma carecada a qualquer individuo que lá fosse encontrado a fazer compras.
Zé Macário
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