Lembro-me, lembro-me vezes incontáveis daquele mocinho. Teria cerca de três anitos quando, atado às costas de sua mãe, escapou às balas que a crivaram mortalmente, também pelas costas, quando fugia, numa operação militar em Kankêbo ou no Saraol—já não me lembro bem.
Ali ficou aquela mulher estendida numa pequena clareira da mata, enquanto a tropa pegou no menino e o trouxe consigo para o quartel, com os míseros despojos de guerra.
Nesta operação deixámos um militar morto, Deus sabe se como penhor do menino vivo que trouxemos.
Não houve possibilidade de recuperar o corpo deste militar, e tivemos informações mais tarde de que teria sido enterrado e armadilhado pelo IN, para o caso de o tentarmos resgatar.
Chegados ao quartel, o nosso menino foi baptizado e recebeu o nome do comandante de companhia – Eduardo. Fizeram-se-lhe fatinhos militares camuflados, e atribuíram-se-lhe
os galões de capitão, como seu padrinho.
Recebia o carinho de todos os militares e era ver crescer em corpo, graça, simpatia e saber, aquele belo menino preto – não muito escuro.
Acode-me muitas vezes ao espírito a visão desta mulher a cair crivada de balas que, - como por milagre – não atingiram o seu menino.
No aquartelamento muitas vezes se discutiu entre nós a possibilidade de – acabada a missão - o trazer para a metrópole e prover à sua criação e educação.
Vim da Guiné evacuado meio ano antes do regresso dos meus companheiros; fui recebê-los com um abraço à chegada, porém o Eduardo não estava lá. Sim, o Eduardo ficou na Guiné, possivelmente com os militares que renderam estes.
Muitas vezes me pergunto o que será feito desse menino, que, com certeza iria ter muitas dificuldades em enquadrar-se na sociedade guineense. Deus queira que estejas vivo e bem, Eduardo, onde quer que estejas.
Afinal estou velho como o caraças, pois esta, é uma recordação de 1967, e eu já tinha nessa altura 23 anos.
Zé Macário
Sem comentários:
Enviar um comentário