sexta-feira, 18 de março de 2011

O Mundo Anda De Pernas Para o Ar




 Decorria a década de sessenta do século passado, mantínhamos a fase mais acesa da guerra de África…
Alguns banidos ou auto banidos da sociedade portuguesa, encontravam-se em exílios dourados espalhados pelo mundo, uns tantos mesmo – como Palma Inácio, na LUAR, que perpetrou o assalto do século ao Banco da Figueira da Foz - militando ou mesmo chefiando grupos de associação criminosa.
Por essa altura um senhor Alegre, colocado numa rádio de Argel, lançava daí, sobre a acção de Portugal, seu exército e seus dirigentes, as «toxinas» imaginariamente mais mortais contra a ordem estabelecida deste Povo.
E era essencialmente sobre a nossa generosa juventude a cumprir o serviço militar, defendendo a pátria nos diversos teatros de operações, que se fazia sentir o opróbrio lançado por esses  «portugueses» proscritos.
 Há bem pouco tempo ainda, quando este senhor proferia uma palestra na fundação Gulbenkian, ter-se-á levantado na assistência um velho militar, para lhe lembrar este triste passado.
Muitos desses exilados seriam – acredita-se – filhos rebeldes de papás, mais ou menos ligados ou apaniguados do regime vigente, e eles mesmo beneficiando dessa condição.
Lançavam sobre este Povo as «toxinas» possíveis, e espreitavam – perguntando ao «vento que passa» – a morte do regime, para, sobre a implantação de um novo, se instalarem como abutres.
E os nossos bravos capitães de Abril – com certeza sem o desejarem – fizeram de trampolim a uma boa parte destes indivíduos, cuja maioria até eram refractários do serviço militar, por cobardia e protecção paternal – sejam quais forem as razões invocadas.
   Assim, após Abril de 1974, regressaram e instalaram-se à mesa do O E, de barrigas cheias, para o resto das suas vidas.
Tal como o irmão mais velho do bíblico filho pródigo, também nunca compreendi a apaixonada e solene recepção que os povos habitualmente fazem aos seus trânsfugas, -  tantas vezes por lá perdidos em vidas dissolutas e desonrando ignominiosamente as suas origens – cumulando-os de benesses.
  A criatura aqui em apreço, foi também dos que esteve envolvido na repugnante recepção, efusiva, na assembleia da república, a um dos acusados no escândalo de pedofilia da Casa Pia, evidentemente bem presente na memória de todos os portugueses – tratando-se no entanto, é da praxe dizê-lo - de presumível inocente até trânsito em julgado
Não, também não percebo como é que as polícias ou os tribunais podem incomodar um qualquer cidadão pela presunção de inocência, pois eu pensava, na minha santa ingenuidade, que estes organismos só deveriam incomodar as pessoas, sob a presunção de culpa.
Alegre, é hoje, -  e só por isso o trago aqui à colação  – alegremente candidato e pela segunda vez, à presidência da república que tanto vilipendiou.  As voltas que o mundo dá!...
É meu entendimento que, legitimar quaisquer crimes ou más acções, por serem considerados de natureza política – sendo essa consideração, sempre de índole subjectiva – é validar a legitimidade das mesmas acções em qualquer tempo e em qualquer regime, por poderem ser considerados - também subjectivamente - da mesma natureza. Por exemplo, aviltar a bandeira nacional, ofendendo um povo através do seu símbolo máximo e perene, é sempre, em todas as circunstâncias, uma acção perversa e condenável.

 No entanto, o que poderemos esperar de um tempo em que, por exemplo, muitas ruas da freguesia onde moro, têm por titulo nomes, com subtítulos de anti fascista e presos políticos, em vez de terem simplesmente como subtítulo, agitadores ou cadastrados?!
Verdadeiramente o mundo anda de pernas para o ar!
Quantos capitães de Abril, estarão arrependidos de terem participado na deposição de um regime, para implantação de um outro, que veio a ter como dirigentes substitutos, gente deste jaez, e com os resultados que se conhecem?
Esperamos que desta vez, Alegre, não possa mais acenar com a sua bandeira de «um milhão» e do seu arrogante: a mim, ninguém me cala!
Entendo que não deve espiolhar-se a vida dos cidadãos, porém, quando estes pretendem aceder a representantes máximos de um povo, devia ser conhecida integralmente a sua biografia, e nunca deixar que o passado caísse na via do esquecimento.


Em Sta Iria De Azóia  5 / 12 / 2010


Zé Macário

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