sexta-feira, 18 de março de 2011

A Lenda da Alcateia



Tem séculos esta história, contando-se puída de repetida, nos serões das longas noites de Inverno à volta da lareira, entre as diversas histórias de terror, de lobos, de lobisomens, bruxas e feiticeiras, que embalavam, encantavam e atormentavam a minha meninice.
È de Magueija o Albino e de Parafita a Carminda, sua conversada - por quem aliás morre de amores…
É tempo de recolha do milho – base da sustentação das gentes desse tempo – e há desfolhadas e debulhas em Parafita.
Em magueija, noite alta, e já na cama deitado, debate-se a imaginação do Albino entre o amor ciumento e o medo de atravessar aquela serra árida e solitária, toda povoada de lobos e perigos vários…
Não, não podia deixar que naquela desfolhada, a sua Carminda pudesse, longe de si, ser abraçada por um qualquer rapazola cobiçoso e atrevido, que tivesse a dita de encontrar uma espiga de milho-rei.
A fim de evitar alarmes em família, colocou em seu lugar, na cama, um pequeno molho de canas que, coberto com os lençóis e cobertores, configurava o próprio corpo, garantindo assim a sua presença, fictícia, em casa
Sorrateiramente cobre o capote, sai de casa e põe-se a caminho de Parafita com o coração ardente de paixão pela sua amada.
Tendo só por companhia as cintilantes estrelas – que nessa noite tinham mais brilho – avança resoluto por ermos e áridos caminhos, assaltado muitas vezes pela visão imaginária de perigosos fantasmas.
Também o padrinho que em Magueija mora perto de si, é assaltado por pesadelos medonhos, com a visão sonâmbula de um ataque de lobos ao seu afilhado.
Vai alarmado a casa da comadre perguntar pelo afilhado, e esta sossega-o com a exibição do vulto das canas que, na cama, parecem o seu Albino. Enquanto isto, Albino avança no caminho a passos largos.
O padrinho não conciliava o sono e o sono não conciliava a sua tranquilidade… 
Perante um segundo e um terceiro pesadelo com a visão dos lobos em fúria, o compadre volta a casa da comadre e então descobrem o engodo do molho das canas.
Por esta altura, o Albino irá para lá do cruzeiro do padre Justino, já muito perto das apertadinhas.
Descoberto o engodo e perante a aflição do padrinho, com o toque do sino a rebate, meia Magueija se levanta e corre solícita no encalço daquele.  
Junto ao cruzeiro de Parafita, o Albino é atacado por sete lobos esfomeados… Luta enquanto pode, distribuindo sacholadas, para afugentar os bichos…
A caminho e já nas apertadinhas, as pessoas de Magueija ouvem os gritos e a luta do Albino…
Bem lhe gritam ainda, ânimo! Coragem! Aguenta-te! Larga perro!
Era porém tarde demais, e quando estes amigos chegaram perto do cruzeiro de Parafita, já Albino tinha sido todo comidinho pela alcateia que, só deixara como vestígios os pés, dentro do cano das botas. 
Carminda guardou luto até ao fim da vida, e para ali vinha todos os dias guardar as ovelhas, e, debruçada no penedo junto ao local onde Albino se foi, todos os dias carpia lamentos, que com o tempo, se tornaram numa canção-lamento.
Lá está ainda o penedo, polido, sem musgo, e, garanto-vos, que sempre que ali passo, encosto-lhe o meu ouvido, e é perfeitamente audível aquele dorido e terno lamento. 
Também nas águas do rio que ali correm bem perto, e que em tempos testemunharam a tragédia, se ouve em doce murmúrio a bela canção dos amantes, celebrando nupcialmente o seu reencontro no céu.


Em Sta Iria     
Macário

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