quinta-feira, 31 de março de 2011

Macário – O Almocreve

Transmitidas por tradição oral através dos tempos, a História e as histórias, chegam por vezes até nós, já muito deturpadas, quer na forma, no conteúdo, ou nos protagonistas.
No entanto, foi assim que o meu pai, muitas vezes, me contou esta:
- Macário era um almocreve, casado, que vivia numa aldeola perto de Atenas, em perfeita harmonia com toda a família e vizinhos.
Porém, ao regressar um dia, de uma das suas longas viagens, encontrou um homem dormindo na sua cama.
Furioso, por se sentir traído na fidelidade que a sua amada lhe devia, desferiu sobre aquele corpo, várias machadadas, assassinando-o.
Correu à procura da mulher, para lhe fazer o mesmo, e ao encontrá-la, esta relata-lhe:
- O teu pai chegou aqui muito doente e tremendo de frio.
Fiz-lhe um chá e agasalhei-o na nossa cama, por ser a mais confortável da casa, e agora está melhorzinho e dorme descansadamente.
Macário acorda da cólera que o cegara, e exclama:
- Ai de mim, que matei o meu pai!
Para expiar o seu pecado, vai para o meio de um rio, transportar gratuitamente, às cavalitas, pessoas, de uma margem para a outra.
Aconteceu porém que um dia, ao transportar uma criança, as pernas quase lhe vergavam com o peso. Apreensivo, tentou ver a cara daquela pequena criança. Porém, vinda de cima dos seus ombros, uma voz lhe dizia: - Não tentes ver-me o rosto, porque um assassino não é digno de ver o rosto do seu Deus.
Ainda retorquiu: -Parece que levo em cima de mim o peso do mundo!
A mesma voz respondeu-lhe: - Não levas o peso do mundo, mas sim o peso de quem o governa.
Todavia, expiada a pena que ele próprio se impôs, tornou-se santo – com direito a altar e tudo - enriquecendo assim o longo cânon dos santos da igreja.
 E assim ficamos com o São Macário, de cujos milagres o meu pai nunca me falou.
Contudo tenho a impressão que a história que meu pai me contava não era a de São Macário, mas antes a de São Cristóvão.
Quem conta um conto, acrescenta um ponto!

Zé Macário
30/03/2011

1 comentário:

  1. A parte final também associo a S. Cristovão, apesar do inicio que conheço não ser esse. Mas lá está quem conta um conto ...

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